Publicado 19 de Abril de 2020 - 19h05

Nos velhos tempos em que eu gostava de trafegar pelas coisas da chamada “cultura inútil”, tomei conhecimento da existência, em algum lugar do passado, de um sujeito chamado Alexander Selkirk. Essas coisas, afinal, ficam depositadas em algum escaninho das nossas cabeças, e podem até não voltar a emergir nunca. Mas o nome do citado cidadão, filho do Reino Unido, deixou, de repente, de estar repousando em sono eterno na minha cachola. De lá arrancado exatamente por causa destes tristes tempos em que estamos envolvidos pelas sombras e horrores do coronavírus. Que se sabe, através de dados relativamente sólidos, como começou. Porém ainda se ignora como terminará.

O que acontece é que, atualmente, a humanidade está absolutamente crivada de pessoas que vivem como Robinsons Crusoé. Obrigadas a permanecer isoladas por causa da peste medonha, são, também, náufragos solitários como aquele que se tornou eterno por ter tido sua saga narrada por Daniel Defoe (1660-1731) no famoso livro que leva o nome do personagem. Primeira edição saída em Londres, no longínquo 1719, quando o autor já entrava na casa dos 60 anos.

Mas, afinal, algumas pessoas devem estar a perguntar, e o que o citado Alexander Selkirk tem a ver com isso? Muita coisa, certamente; pois foi ele o náufrago da vida real que inspirou Defoe a criar o seu. Só que Selkirk permaneceu solitário em uma ilha deserta por apenas alguns poucos anos. Enquanto Crusoé ficou com o olhar perdido na linha do horizonte do mar imenso, à espera de alguém que viesse resgata-lo, por nada menos de vinte e oito primaveras, verões, outonos e invernos.

Pois bem, assim é que estão alguns amigos meus, solitárias pessoas que, de repente, se viram obrigados a mal poderem colocar já nem diria os pés; mas sequer os olhos, nas ruas. E isso, pelas narrativas que me chegam através do celular, tem revelado acontecimentos absolutamente inusitados destes Robinsons Crusoé da vida urbana trancados em suas ilhas sem praias e sem horizontes. Pasto de amarguras na dura lida de como passar o tempo.

O aposentado C.A, por exemplo, me contou que sua grande diversão, já faz alguns dias, é acompanhar o movimento das formigas que descobriu a ir e vir no peitoril da janela do quarto. Ele, que sempre ouviu falar da eficiente organização de tais seres, agora fica observando, ao longo de vastos instantes, como eles vêm e vão, andando com precisão e método a cumprir algo absolutamente determinado. Dia desses meu amigo colocou, no caminho dos bichinhos, alguns pequenos cristais de açúcar num trecho; e, adiante, gotícula de adoçante.

- Sabe da maior? – Me perguntou.

- Não faço a menor ideia – respondi.

- Pois a formigas ignoraram completamente o liquido, e se grudaram a cada nano pedrinha do açúcar.

Já outro amigo também aposentado, O.M, me disse que tem ficado horas com a vista presa numa pequena fissura que descobriu num cantinho da parede.

- Mas o que você espera sacar? – Indaguei.

- Uma barata. Tô louco para que saia, do buraquinho, uma porra duma barata!

- E pra que? Barata é um horror, meu.

- Pra sentar o chinelo nas costas dela.

Agora, voltando ao Crusoé do livro, ele, ao longo dos anos de solidão aprendeu a fazer inúmeras coisas; mas, pelo que ansiava, mesmo, era pela companhia de algum humano que nem ele. Até que, certa manhã, perto do meio-dia, quando foi pegar algo que deixara junto a umas pedras da praia, estancou, com os olhos arregalados; é que estava ali, diante deles, a marca de pés humanos cavados na areia fofa. O náufrago primeiro voltou-se para um lado e outro. Chegou mesmo a apalpar com a ponta dos dedos o carimbado no chão. Certo, porém, que conseguiria avistar alguém, correu para uma elevação cujo sopé ficava perto da praia. Só que nada.

Bom, o resto os que leram o livro sabem: adiante Crusoé deu de cara com um indígena que ia ser sacrificado por canibais que viviam numa outra ilha, e o salvou. Assim surge o personagem Sexta-Feira, que ficou como sua companhia até ser resgatado. E, inclusive, Robinson o levou para a Inglaterra, quando salvo. De resto, nós, os náufragos destes tempos de coronavírus, também estamos ansiosos por encontrar a esperança traduzida em marca igual aquela que Crusoé encontrou na areia. Que será, naturalmente, uma vacina ou remédio que esvaziará quartos em casas e hospitais. Podendo, também, devolver a esta triste terra algum prazer pela vida que sobre sua face ainda poderá haver.

PS – Daniel Defoe, como se sabe, escreveu vários livros além do maravilhoso Robinson Crusoé. Entre eles, curiosamente, um intitulado Diário do Ano da Praga. No qual narra acontecimentos ocorridos entre 1665 e 1666 quando um surto de peste bubônica por pouco não risca a Inglaterra do mapa do mundo.