Publicado 20 de Abril de 2020 - 5h30

A Região Metropolitana de Campinas (RMC) vive o drama inconcebível de uma ameaçadora epidemia de dengue, que começa a tomar proporções preocupantes e demonstra a incapacidade de se fazer um planejamento de longo prazo para o combate a uma doença tropical que já se julgava sob controle. Desenvolvida no eixo dos cursos d'água que cortam o País, a dengue invadiu os centros urbanos, trazida pelo desmatamento e pela falta de condições sanitárias que favorecem a proliferação dos mosquitos transmissores do vírus. O resultado é um estado de contaminação fora do controle, que exige ações extremas e aplicação de recursos que vêm com atraso.

Os últimos balanços apontam para um número de vítimas recorde em Campinas, superando as fases mais críticas registradas anteriormente. Os cuidados preventivos continuam os mesmos, focados na eliminação de criadouros e a erradicação dos mosquitos aedes responsáveis pela contaminação. Mas o trabalho, de uma simplicidade técnica impressionante, esbarra no maior obstáculo que é a ignorância popular e a falta de condições sanitárias nas cidades. Nem mesmo as campanhas maciças são capazes de instruir ou convencer as pessoas, que insistem em manter pontos facilitadores.

O que mais chama atenção é a falta de planejamento para o combate a uma epidemia mapeada, de ciclos previsíveis, tanto que técnicos antecipam o períodos de maior incidência. Quando eclodem os casos mais sérios, que podem inclusive levar à morte, criam-se forças-tarefas nos municípios, busca-se o apoio de forças do Exército, fazem-se mutirões para fiscalizar as residências, programam-se ações preventivas e campanhas educativas, que têm o efeito retardado de tentar contar a proliferação do que já é uma epidemia instalada.

O que falta é uma ação preventiva de fato, antecipada, fora do momento de crise. As casas não podem ser fiscalizadas somente em períodos de alta contaminação, as campanhas educativas não podem minguar. É importante um trabalho constante, efetivo, ordenado, envolvendo todos os órgãos públicos e instituições que possam colaborar, esforço concentrado em todos os níveis, visando não apenas a prevenção ou contenção de epidemias, mas tendo como foco essencial a total erradicação da doença. Inadmissível que em pleno século 21 as cidades ainda convivam vergonhosamente com doenças tropicais que exigem principalmente educação e higiene.