Publicado 20 de Abril de 2020 - 5h30

A menina tinha quatro anos, cabelos levemente loiros e olhos castanhos de andorinha. A sua alma feminina surgiu em uma madrugada orvalhada de duas luas cheias de um planeta distante e ainda incógnito, o que não era nenhuma novidade, pois, de modo geral e natural, são desses lugares que chega a primeira das almas das mulheres.

Porque ainda era tão menino quanto ela, eu ainda não sabia dessas coisas femininas e apenas gostava da brisa que seus olhos sopravam nos meus olhos e dos pirilampos prateados que brilhavam por detrás de suas pálpebras, quando ela sonhava, adormecida no chão do alpendre da casa dos meus pais.

E porque as crianças amam pelo contrário do tempo, sem interesse maiores senão se entusiasmar pelo que ainda não se sabe, o voo de quem voa, ou o cheiro do que cheira, além da pressa das formigas e o lento arrastar dos caracóis, quando ela mudou de cidade eu não me importei porque as coisas comuns, que descobrimos juntos, ficaram comigo, no meu quintal, no corredor da minha casa, no alpendre e no pequeno pedaço de céu que, de quando em quando, nos oferecia urubus planando longe e, às vezes, uma pipa colorida ou um teco-teco barulhento. E porque eu era menino ainda não sabia que o meu primeiro amor estaria sempre por perto, desde que tudo o que tivemos juntos assim permanecesse. Quanto a ela, não sei, nos encontramos duas décadas depois e não vi a menina por quem me apaixonei, e nem ela se lembrava do nosso céu de urubus, pipas e teco-tecos barulhentos.

E assim segui até o dia em que eu vi uma garota morena subir no bonde e dizer um “oi” que até então nunca ouvira mais bonito. O céu não mais me oferecia urubus, pipas e aviões. Quero dizer, tinha tudo isso ainda, mas também tinha estrelas, canções e luar. Mas a morena tinha outras coisas a descobrir e assim não conseguimos juntar muitas lembranças, nada além do banco que repartíamos e da paisagem que passava pelos vãos dos balaústres do bonde. E porque ficamos apenas com o que tínhamos levado até então, nossos cadernos e nossos olhos tímidos, ela seguiu um caminho que também desconheço e que desapareceu, como o bonde da minha adolescência...

E vieram os amores da carne e os poemas desesperados que as almas femininas causam quando se despedem ou simplesmente desaparecem das nossas mesas e bares; a palavra aí se pretende anzol para fisgar um raio de verão: sem serventia e sentido. É quando se compreende a vagotonia das palavras quando usadas para explicar o que não tem explicação: o naufrágio daquilo que se pensava para sempre: aprisionar em beijos e versos a alma de uma mulher.

Às vezes, quando a madrugada se faz serena, silenciosa e insone, me acomodo na cadeira de balanço da varanda e converso com as plantas e esculturas que enfeitam o apartamento, todas elas femininas e misteriosas. Às vezes, acontece de a companheira adormecer no meu colo, no sofá, e lembro da menina que tinha olhos acastanhados de andorinha e pirilampos debaixo das pálpebras. É o amor voltando ao seu devido tempo, somando coisas que fomos ajuntando pela vida, pedras de rios, conchas de muitos mares, plantas e esculturas, livros, discos e quadros. E no pedaço de céu que a varanda nos dá, além dos urubus, pipas e aviões que ela também gosta, sei que lá está o que me cabe compreender: trazer o colo sempre macio e fresco para que ela possa descansar a sua misteriosa e para sempre inexpugnável alma, e trazer a mão sempre quente para acariciar os pés e a barriga da sua perna. Fantástico!

Bom dia.