Publicado 19 de Abril de 2020 - 5h30

Tenho filhos, netos, já plantei árvores e não pretendo escrever livro. Pretendo ficar para semente. E a razão é simples: todos os meus escritores preferidos já subiram para o andar de cima. O último foi Rubem Fonseca, um dos primeiros cronistas que me cativou. E assim sou cronista e gosto da precariedade das palavras no papel do jornal: lida a dita crônica, embrulha-se o peixe e fim. E vamos em frente. Sim, guardo as crônicas que já publiquei dentro de um pequeno bastão a que chamam pen drive. Se isso se escreve com ou sem tirete, não sei. Ah, sim. Tirete é o nome brasileiro do hífen, também chamado de traço-de-união, risca-de-união, ou tracinho, que acho o mais simpático de todos. Nem todas as crônicas, devo dizer, somente as publicadas nos últimos quinze anos do Diário do Povo e, é claro, na simpática e saudosa Gazeta do Cambuí. Mas se quisesse – ou achasse razão para tanto – caberia no pen drive as palavras que publiquei em meus primeiros quatorze anos como cronista diário. Eram quase cinco mil crônicas guardadas em envelopes de plástico e já amareladas, algumas corroídas por traças famélicas. No ano passado, peguei todas crônicas arquivadas e joguei no lixo. Sou um cara despojado, pois não? Lidas assim, na folha de jornal recortada, até que faziam sentido. No pen drive, sei não; mas acho que não sobreviveriam, assim como não reconheço como minhas as crônicas publicadas no livro “Os Espiões da Cidade” e que contou com as palavras dos amigos Antonio Contente, Edmilson Siqueira e Jota Toledo que, após um fim de semana regado a malte e gaitas escocesas, me convenceu a participar do livro com as crônicas que ele já havia escolhido.

Ter filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Prefiro ter filhos e continuar plantando árvores. Ou melhor, sementes. No momento, estou plantando o alpiste que o canário joga no chão da varanda do apartamento. Passarinho como sabemos é um semeador por natureza. E o meu vive numa confortável e branca gaiola, o que o impede de sair por aí semeando os campos e quintais suburbanos. E o que me custa recolher o alpiste e semeá-lo pelos vasos do apartamento e assim ajudá-lo a cumprir a boa sina? Às vezes, juntava um punhadinho para semear as encostas da via expressa Aquidabã onde, aliás, já plantei dois pés de goiaba e um de manga coquinho. A mangueira morreu, mas as goiabeiras vingaram, felizmente, e hoje deliciam as vontades da criançada que estuda na Escola Dom Barreto e dos pardais e bem-te-vis (com ou sem tracinho, hein?) que passam por lá. Lembra do maná que matou a fome dos bíblicos judeus? Pois é, nunca vi manazeiro. E alpiste só na banquinha da japonesa do Mercadão, onde também compro painço, outra planta que também nunca vi.

É o que eu sou: um plantador de plantas que nunca vi. E porque nunca vi um pé de palavreiro, semeio palavras para dar um sentido nesta louca e maravilhosa aventura que é a vida. E palavras só precisam de um entendimento para frutificar ideias que, se boas ou más, só saberemos depois de uma longa maturação; muitas, a maioria, talvez, caem de precoce podridão e retornam ao porão do cérebro. Mas uma que vingue vale o esforço da semeadura. Daí a minha esperança de, um dia, ver um alpisteiro e, suprema das graças, um pé de maná crescendo ao lado de um palavreiro.

Escrevo e não estou só nestes dias de isolamento pandêmico. A moça-que-manda-em-mim está comigo e é o que me basta. Ela fez uma máscara de pano para que eu possa fazer a minha rápida caminhada pela tarde e está preparando outra. Ela gostou da lasanha que fiz para o jantar de anteontem. E juro que não apanhei a dita cuja num pé de lasanheiro. Mas duro mesmo é colher assunto num pé de palavreiro. Os tempos estão ariscos e todo cuidado é pouco. Principalmente para fazer uma sopa de letrinhas. É isso. Bom dia.