Publicado 18 de Abril de 2020 - 5h30

O Hospital Vera Cruz de Campinas realizará protocolo de pesquisa para uso da nitazoxanida, princípio ativo do vermífugo conhecido comercialmente como Annita, para tratamento de pacientes da Covid-19. O medicamento é apontado como sendo a droga promissora descoberta por cientistas do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas — foi capaz de reduzir em 94% a carga viral da doença após 48 horas, segundo ensaios in vitro com células infectadas realizods pelos pesquisadores.

Na última quarta-feira, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, sem confirmar o nome do remédio, disse em coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, em Brasília, que o fármaco selecionado dentre 2 mil compostos seguirá para testes clínicos em 500 pacientes. A estimativa do governo federal é que os resultados sejam concluídos até a metade do mês de maio.

Em meio as especulações e para evitar que o cenário que aconteceu com a cloroquina se repetisse, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma resolução, anteontem, incluindo a nitazoxanida na relação de medicamentos controlados. Na manhã de ontem, a Hospital Care, holding administradora de serviços de saúde que gere o Vera Cruz, informou, em nota, que iniciará os testes com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Sistema CEP-Conep) e da Anvisa.

“O objetivo do estudo é avaliar a eficiência da droga, que já possui comprovado efeito antiviral, na diminuição da carga viral de pacientes infectados, ainda no início do tratamento, esperando evitar que eles não agravem seus estados de saúde”, diz trecho da nota.

Os testes já deverão ser realizados a partir deste final de semana, em pacientes internados na Vera Cruz Casa de Saúde, onde foi montado um centro de atendimento ao coronavírus. O estudo poderá ser estendido aos demais hospitais do grupo, em Ribeirão Preto, Florianópolis e Curitiba.

De acordo com a Hospital Care, o estudo será dividido em duas fases, sendo uma primeira de acompanhamento durante os sete dias iniciais do tratamento. E a segunda, com 14 dias de duração, de acompanhamento clínico, totalizando 21 dias. O texto enfatiza que todas as normas da boa pesquisa clínica serão cumpridas, inclusive a autorização livre e esclarecida por parte dos pacientes ou familiares. A Hospital Care reforça que a administração de nitazoxanida em pacientes com Covid-19 segue rigorosos protocolos médicos e que, em nenhuma hipótese, a droga deve ser utilizada sem acompanhamento médico.

Sigilo

Desde o anúncio feito pelo ministro Marcos Pontes, o Ministério da Saúde mantém sigilo sobre o remédio selecionado pelo CNPEM. Na última quarta-feira, foi explicado que isso é necessário para garantir a continuidade dos testes clínicos com o medicamento e por questões de segurança, até que os resultados comprovem a sua eficácia em pacientes acometidos pela Covid-19.

Contudo, assegurou que o fármaco é de custo acessível, com ampla distribuição no território nacional e sua administração não está relacionada a efeitos colaterais graves. Secretário de políticas para formação e ações estratégicas do MCTIC, Marcelo Morales detalhou que o teste clínico acontecerá em sete hospitais do País, sendo cinco deles no Rio de Janeiro, um em Brasília e outro em São Paulo. Explicou ainda que os pacientes receberão tratamento diário com a substância. Para participar, eles precisarão assinar um termo aprovando a sistemática, considerando que não serão informados sobre qual medicamento estão recebendo. Da mesma forma, os médicos não terão o dado. Apenas os cientistas.

Seguindo o protocolo clínico, serão testados pacientes com idade acima de 18 anos, com pneumonia inicial e sintomas típicos da doença. Parte do grupo receberá placebo e outra parte receberá o medicamento para avaliar sua eficácia. O tempo de avaliação de cada paciente será de 14 dias.

Procura pelo medicamento aumenta nas farmácias

Depois das notícias veiculadas nos últimos dias, Juliana Doro, farmacêutica da unidade Centro da rede Drogal, situada na Avenida Francisco Glicério, comentou que a procura pelo medicamento Annita aumentou significantemente. As ligações, frisa, perguntando sobre a disponibilidade do remédio e seu custo, foram inúmeras. Contudo, as conversas são encerradas quando os clientes são informados de que essa droga, agora, é controlada. Nesta farmácia, a caixa com seis comprimidos do Annita custa em torno de R$ 66 — preço com desconto. O frasco com 100 mg sai por cerca de R$ 57. O genérico é comercializado entre R$ 42 e R$ 36, respectivamente.

Farmacêutico da Farmaxima Aquidabã, Felipe Lance disse que os únicos dois Annita restantes no estoque foram vendidos na última quarta-feira. De acordo com ele, o cliente comprou o remédio após tomar conhecimento da possibilidade de o medicamento estar sendo testado.

“As coisas são muito rápidas na internet”, contextualizou. Por se tratar de uma loja pequena e do fato que a procura costumava ser mínima, explicou, não havia um grande estoque. Um novo lote deve ser entregue pelo fabricante na próxima semana. Porém, já foi informado pelo fornecedor que o composto já está em falta. “Pode ocorrer o que aconteceu com a cloroquina e as autoridades destinarem os estoques para hospitais”, encerrou. (DC/AAN)