Publicado 17 de Abril de 2020 - 5h30

Estaríamos todos anestesiados para não observar o que acontece com o mundo, mas, principalmente, com o Brasil, que é onde vivemos? Temos acesso à tecnologia mais avançada, que nos permite contato online imediato com todas as partes do planeta. Conversamos ao vivo, mandamos mensagens, participamos de tudo. Tomamos posição em relação aos temas candentes. Mas o que resulta disso? Sabemos que a Democracia Representativa é um projeto falho. Ninguém se sente representado. Mas pactuamos com a destinação de dois bilhões de reais para Fundo que deveria resultar da participação dos filiados. Quem acredita num partido deve sustenta-lo. Não o povo, privado de saúde, educação, saneamento básico, infraestrutura, emprego, moradia e perspectiva de vida digna.

Temos consciência de que perdemos décadas de investimento em pesquisa e tecnologia de ponta e que nossas indústrias estão sucateadas. Mas continuamos a acreditar que essa educação pífia, em que as crianças são adestradas e treinadas a memorizar imbecilidades é suficiente para que sobrevivam amanhã. Não podemos ignorar que a escola convencional já não cumpre a sua função de formar pessoas capazes de subsistir no cataclismo de uma Quarta Revolução Industrial, num País que é um campo experimental sedutor. Pois tem nichos pré-históricos, medievais, superados em convívio com o que há de mais avançado em high-tech.

Vemos nossa melhor juventude desempregada. Obter diploma já não significa adentrar ao mercado de trabalho. Mas insistimos em proclamar que as carreiras devam ser as tradicionais. O Brasil é o país que tem um número inacreditável de Faculdades de Direito: ele é superior à soma de todas as demais que existem no planeta.

Qual o resultado dessa massificação do bacharelado em ciências jurídicas? O fenômeno nefasto da judicialização patológica. Um Brasil que já teve cem milhões de processos em curso e que hoje ainda conserva oitenta milhões em andamento, não pode dar certo. Enquanto o mundo assume posturas corajosas em relação ao meio ambiente, até a China proibiu o plástico e quer gerar menos resíduo sólido, pois sabe que é a vida que está em jogo, nós continuamos lenientes quanto à destruição da Amazônia. Desmanche dos setores encarregados de zelar pela natureza. Fazemos humor com as imbecilidades propaladas, quais as de que as ONGs estão incendiando a floresta a mando de Brad Pitt... Convivemos com quase quarenta partidos, quando não acreditamos em qualquer deles. Achamos que é normal pessoas dormirem nas ruas, não nos alarmamos com a morte de jovens do sexo masculino, em sua maioria negros ou pardos, porque acreditamos que isso é faxina, em lugar de chacina.

Não nos comove a fuga de cérebros para a Europa, nem o repatriamento de brasileiros que, em busca de um futuro melhor, arriscam-se a entrar de forma clandestina nos Estados Unidos. Não nos indignamos com os erros, os equívocos, as tolices, a imbecilidade e a ignorância de pessoas às quais foram entregues funções estatais da maior relevância. Perdemos a capacidade de indignação, assistimos ao retrocesso de maneira inerte, nada mais nos sensibiliza.

Em ano de eleições municipais, teremos noção da responsabilidade que nos toca ao escolher pessoas que poderão — se quiserem e se nós as cobrarmos por isso — mudar a fisionomia de nossas cidades? Será que ainda nos anima o mínimo de cidadania suficiente para lembrar que estamos numa República, na qual não assumimos os valores republicanos, mas continuamos a incensar o poder como se ainda vivêssemos no Império? Algo que não deveria assustar, se tivéssemos Imperadores estadistas, altruístas, pioneiros, eruditos e mecenas como Pedro II! Que falta ele faz!