Publicado 20 de Abril de 2020 - 9h08

Por AFP

Berthe Badehi, que viveu escondida durante a Segunda Guerra Mundial, agora se tranca entre as quatro paredes de sua casa para evitar o coronavírus. Para os sobreviventes confinados, o Dia do Holocausto será este ano digital, antecipando um futuro em que as vítimas do nazismo serão apenas hologramas.

Aos 88 anos, Badehi ia diariamente ao Yad Vashem, o centro memorial israelense em Jerusalém dedicado às milhões de vítimas do genocídio judeu pela Alemanha nazista. Mas a pandemia a obriga a ficar em casa.

Além disso, o Yad Vashem fechou suas portas ao público e não realizará nenhum evento para o Yom Hashoah, "Dia do Holocausto", que é recordado em Israel desde o crepúsculo desta segunda-feira até terça-feira à noite.

O mesmo acontecerá em várias cidades do mundo, onde os sobreviventes do nazismo lutam desta vez contra um vírus que ataca principalmente as pessoas mais velhas.

"Experimentamos coisas difíceis em nossas vidas. Na França, durante a guerra, escondíamos nossa identidade, vivíamos com medo e perdemos contato com nossas famílias", relata Badehi.

"Hoje estamos trancados, mas com telefones, internet (...) temos contato com nossos filhos e netos. Não é fácil, mas fazemos isso para permanecermos vivos. O que aprendi na guerra é cuidar de mim sozinha", acrescenta.

No entanto, "é indecente comparar a "corona" com o Holocausto, ambos não têm nada a ver", diz Dov Landau, de 91 anos, sobrevivente do campo de Auschwitz.

"Hoje não temos fome nem sede, e homens, mulheres e crianças não correm o risco de serem queimados vivos. Sim, estou entediado, não posso viajar ou fazer compras, mas isso não é importante", diz ele.

Dov Landau é um "homem-memória". Todo ano, ele vai a Auschwitz com grupos de crianças em idade escolar para transmitir seu relato pessoal do Holocausto.

Apenas este ano foi duas vezes à Polônia, onde estava localizado o campo de concentração e extermínio nazista, para dar seu testemunho.

Mas a pandemia veio e encerrou as viagens.

Como ele, Shmuel Blumenfeld, um sobrevivente de Auschwitz, fez diversas vezes as viagens escolares para a Polônia, como demonstra a galeria de fotos alinhadas em seu apartamento, localizado em um arranha-céu nos subúrbios de Tel Aviv.

Para este Yom Hashoah, o senhor de 95 anos compartilhará sua experiência pessoal por videoconferência com membros de uma associação israelense.

Este ano serve como um teste antes dos últimos sobreviventes desaparecerem e quando seus testemunhos não restarem mais para transmitir a memória do Holocausto às gerações futuras.

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