Publicado 17 de Abril de 2020 - 10h47

Por AFP

"A primeira vez que a vi, fiquei paralisado". O poeta Nicolas Behr gostaria de convidá-la para jantar para conhecê-la melhor, mas acontece que o objeto de sua inspiração foi Brasília, a capital planejada do Brasil que completa 60 anos na terça-feira (21).

Nascido em 1958 em Cuiabá (Mato Grosso, centro-oeste), esse poeta de longos cabelos grisalhos e lisos encontrou, nos edifícios futuristas e no planejamento urbano com grandes espaços vazios da "cidade utópica", um nicho literário, um território poético para explorar.

"Não foi uma paixão, foi um amor difícil, construído. Vim de uma cidade natural e caí aos 16 anos em uma cidade artificial. E isso me chateou, me agrediu muito. Mas, aos poucos, comecei a dialogar com ela, escrever sobre isso", explicou à AFP.

E acabou transformando-a em sua musa, ciente de que ele, como cidadão, é uma "cobaia" nesse "experimento arquitetônico e urbanístico de novas formas de viver", criado do zero em quatro anos na então despovoada região central do Brasil.

"Brasília é uma utopia eterna, nunca se torna realidade, é sempre um sonho, uma construção diária constante", afirma.

Em sua já vasta obra, que inclui livros de poemas como "Brasilírica", ou "Brasilíada", ele expressa seu fascínio pela "maior conquista coletiva do povo brasileiro", pelos edifícios sensuais do arquiteto Oscar Niemeyer e pela luz quente do cerrado.

Também desfere fortes críticas aos contrastes sociais de uma cidade que pretendia acabar com a desigualdade, assim como ao isolamento de seu urbanismo de "eixos que se cruzam/ pessoas que não se encontram" e à excessiva racionalidade das superquadras, os repetitivos conjuntos de edifícios identificados com siglas e números que, para ele, "nada mais são do que solidão dividida em blocos".

"Brasília tem as cidades-satélite (regiões populares que brotaram em torno do Plano Piloto), os candangos (os trabalhadores que a construíram), as superquadras. [O poder] é um elemento que compõe porque tudo serve para o poema. Tudo entra no poema, não existe nada antipoético que não se possa falar".

Behr é um poeta que emergiu da "geração mimeográfica", um movimento que surgiu na década de 1970 de jovens artistas que usavam essas máquinas para imprimir obras de resistência à ditadura militar (1964-1985).

Em seus livros, ele "se vinga da burocracia, do autoritarismo e da arrogância do poder" em uma cidade desacreditada pela corrupção política e pelos privilégios do funcionalismo da capital, o qual descreve como um "burocrotauro, um ser metade homem metade carimbo que vive nos labirintos dos ministérios".

"Brasília também é poder, não há como escapar. Nasceu capital e depois se tornou cidade (...). Acho que nossa geração vai iniciar um processo para dissociar Brasília da ideia de poder através da arte", afirma.

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