Publicado 09 de Março de 2020 - 5h30

Não sei, talvez pela minha vida comum sem lances estratosféricos, de muitas emoções maiores do que dormir, nas noites do inverno amazônico (entre dezembro e maio) em plena selva. Naveguei em tal época, já faz algum tempo, numa vigilenga (tipo de barco) movida a velas, entre as ilhas do delta do grande rio, parando em algumas. As casas de madeira, geralmente palafitas, são construídas em pequenas enseadas ou na foz de igarapés que desembocam na Baía do Marajó. A paisagem, felizmente, ainda está francamente poupada.

Pelo que vem acontecendo em grandes áreas da Amazônia, em termos de devastações que os satélites mostram com nitidez, até que a região a que me refiro é pouco habitada. Correndo por dentro de furos e paranás, às vezes passam horas sem que se veja uma única habitação. E há pássaros de muitas cores nas árvores. E bandos de papagaios, garças ou guarás cortam o espaço, com frequência.

Foi no cair da tarde, ao se formar uma dessas tempestades súbitas e irremediáveis, com céu que diria quase mais negro do que as asas das graúnas, que enveredamos por um riacho que saia de uma das ilhas, buscando proteção. E achamos.

O primeiro pampeiro, com vento de rajadas fortíssimas, virou, após, só chuva; com um detalhe: em uma hora a despencar sobre o mundo líquido, tinha-se a impressão de que caia, ininterruptamente, há séculos. Primeiro sentimos que respingava sobre folhas e galhos. Após, observamos que os grandes troncos estavam encharcados, que encharcadas pareciam as frutas pendentes, o ar, o céu e, finalmente, nosso próprio corpo; até, talvez, a alma. Mas, naquele surreal movimento de vapores dispersos, vagos suores pela ocorrência minguada de vagas brisas, a sensação chegava a ser muito mais do que boa. Descobri, subitamente, a tentar enxugar a testa com a costa da mão, que era infinitamente melhor estar lá, a rabiscar com lápis sobre um papel meio úmido, do que na avenue des Champs Élysées ou na rue de l’Ancienne Comédie, em Paris, onde ficara mais de mês, semanas antes. “E qual a vantagem disso”? - Perguntaria, ácido, o mordaz jornalista Edmilson Siqueira, que tem na Cidade Luz sua segunda morada. Espiritual.

E veio a noite; de aguaceiro, naturalmente. Não propriamente garoa, sim chuva fina, constante, preguiçosa; talvez, quem sabe?, melancólica. Assim que a vaga luz opaca do sol se desfez, vagarosamente o verde foi ficando cinza. Antes da escuridão total, surpresa: em galhos espalhados, tufos de flores de amarelo gritante. Outras, vermelhas. Faço força, todavia não consigo evitar a comparação – vermelhas como sangue.

Durante mais de uma hora, do rádio movido a pilhas de um dos tripulantes, ouvíamos músicas, ou estáticas. Restos de melodias de países estranhos. De repente, com mexida no dial, um samba de pagode. Adiante, trecho de valsa vienense.

- Deixa isso um pouco – pedi.

Ele deixou. Pensei então como ficaria, ali, a Sinfonia número 25, de Wolfgang Amadeus. Logo, porém, resolvo que seria mais próprio Villa Lobos ou Jayme Ovalle.

- Posso mudar a música? – O dono do radinho me pergunta, incomodado com a valsa.

Faço sim com a cabeça, e uma moça começa a cantar suave canção, muito bonita, do compositor paraense Paulo André Barata.

Finalmente, noite quase alta, o rádio se apaga. Porém não me assusto ao sentir o convés da embarcação ser coberto pelos sons da grande floresta ali ao nosso lado. Saio de sob o toldo, me protejo do chuvisco com o pano da vela abaixada. Dos galhos das margens vinham pios e gemidos. De vez em quando um uivo, longínquo, prolongado, como de lobo em êxtase ou animal ferido. Num determinado momento descubro que sou observado por olhos. Talvez dezenas, centenas, milhares deles a me perscrutar de cada galho mal desenhado contra a escuridão densa.

Numa terceira etapa, após os olhos e sons, vieram os cheiros. Tantos e tão fortes, ou tão suaves e tão misturados, que a própria competente loucura olfativa de Jean Baptiste Grenouille, personagem do romance de Patrick Süskind, O Perfume, talvez não pudesse decifra-los. Súbito, para mim, um deles se torna nítido. Tenho vontade de dizer a alguém, mas todos já dormiam, que ali, na margem, talvez ao alcance das mãos, havia pelo menos um pé de jasmim-da-noite. Seu aroma, de íntimos presságios de bons momentos, sobrepujou todos os outros. Tomou-me de tal forma que não pude sentir mais nenhum outro.

No rumo da foz do igarapé onde estávamos ancorados, percebo, lá longe, a tênue claridade do amanhecer que vinha. Não demorou muito um bem-te-vi, esses arautos do bom tempo, cantou, fazendo com que se mexessem, como num toque de mágica, as ramagens.

- Pronto pra saída? – Pergunta o piloto do barco.

- Pronto pra dormir – me recolho à rede, sob o toldo.

Sinto que somos, lentamente, arrastados para a baía. Outro bem-te-vi arrebenta o peito, em novo canto. Penso novamente na avenue des Champs Élysées e na rue de l’Ancienne Comédie. Fecho os olhos, inundado por uma feliz fobia da civilização. Como era maravilhoso estar longe dela.