Publicado 05 de Março de 2020 - 19h05

Continuo a transcrever trechos que anotei entre 1982 e 1986, sobre minhas conversas com J., meu amigo e mestre na Tradição de RAM. Lembro-me que vivia pedindo conselhos a respeito de qualquer decisão que precisava tomar. J. geralmente ficava calado, até que me disse:

- “As pessoas que fazem parte de nosso dia-a-dia podem nos dar importantes pistas sobre decisões que precisamos tomar. Mas para isso, basta um olhar aguçado, e um ouvido atento, porque os que têm solução na ponta da língua geralmente são suspeitos.”

“É muito perigoso pedir um conselho. É muito arriscado dar um conselho, se temos um mínimo de responsabilidade com a pessoa com quem estamos conversando. Se precisar de ajuda, é melhor ver como as outras pessoas resolvem - ou não resolvem - seus problemas. Nosso anjo muitas vezes usa os lábios de alguém para nos dizer algo, mas esta resposta vem de maneira casual, geralmente num momento em que não deixamos que nossas preocupações escureçam o milagre da vida.”

“Deixemos nosso anjo falar da maneira que ele está acostumado: no momento em que ele julga necessário. Os conselhos são apenas teoria; viver sempre é muito diferente.”

Em seguida, contou-me uma interessante história:

O mestre Kais caminhava com seus discípulos pelo deserto, quando encontrou um ermitão que ali estava há anos.

Os discípulos começaram logo a crivá-lo de perguntas sobre o universo - mas terminaram descobrindo que o homem não possuía toda a sabedoria que parecia ter.

Ao comentarem isto com Kais, este respondeu:

“Não consultem nunca um homem preocupado, por melhor conselheiro que seja; não peçam ajuda ao orgulhoso, por mais inteligente que possa parecer. Pois as preocupações e a vaidade turvam o conhecimento.”

“Sobretudo, desconfiem daquele que vive na solidão; geralmente não está ali porque renunciou a tudo, mas sim porque nunca soube viver com os outros. Qual a sabedoria que podemos esperar deste tipo de gente?”

J. partiu para o aeroporto, e fiquei refletindo sobre nossa conversa. Eu precisava de ajuda, porque repetia sempre os mesmos erros. Minha vida girava em torno de velhos problemas, e volta e meia enfrentava situações que já haviam cruzado muitas vezes meu caminho.

Aquilo me deprimia. Dava-me a sensação de que era incapaz de progredir. Resolvi entrar em um café que costumo freqüentar até hoje, e ficar observando tudo que acontecia à minha volta. Não vi nada, absolutamente nada de novo,e comecei a sentir-me abandonado.

Resolvi pegar um jornal que alguém havia deixado na mesa vizinha,e comecei a folheá-lo ao acaso. Descobri uma resenha sobre um antigo título de Gurdjeff, que acabava de ser relançado; o crítico citava um trecho do livro:

“A fé consciente é liberdade.

A fé instintiva é escravidão.

A fé mecânica é loucura.

A esperança consciente é força.

A esperança emocional é covardia.

A esperança mecânica é doença.

O amor consciente desperta o amor.

O amor emocional desperta o inesperado.

O amor mecânico desperta o ódio.”

Ali estava a resposta: os mesmos temas (fé, esperança, amor) com suas nuances, sempre levando a conseqüências distintas. Passei a ter consciência de que as experiências repetidas têm uma finalidade; ensinar ao ser humano aquilo que ele ainda não aprendeu. A partir desta data, sempre busco uma solução diferente para cada luta repetida – e aos poucos fui encontrando meu caminho.

(Termina na próxima semana)