Publicado 08 de Março de 2020 - 5h30

O escritor de Campinas Jorge Alves de Lima há tempos é encantado com a história do renomado maestro campineiro Carlos Gomes. Suas pesquisas e andanças para resgatar e recontar a história do ídolo o tornaram referência no assunto. Jorge, que é advogado e historiador, foi escolhido para participar de um documentário sobre Carlos Gomes, produzido pela Fundação Nacional de Artes (Funarte). O escritor esteve no Rio de Janeiro, nesta última semana, para gravar sua participação no Teatro Municipal do Rio.

O interesse por Carlos Gomes nasceu de forma mais intensa em 1993, quando Jorge estava no Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) pesquisando a história da cidade e se deparou com uma reportagem sobre a morte de Carlos Gomes em Belém do Pará. "Era uma matéria muito grande e eu me apaixonei pelo assunto. Nessa época, eu escrevia crônicas para o Correio Popular e publiquei algumas a respeito. Mas o espaço era curto. Resolvi escrever um livro", conta.

Ainda era pouco, Jorge queria mergulhar cada vez mais na história. "Em 2016, eu intensifiquei as pesquisas a respeito dele. Eu fui à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e examinei tudo. Examinei os arquivos do jornal O Estado de São Paulo, examinei também os arquivos ainda existentes de um antigo jornal de Campinas chamado Diário de Campinas, do século 19", diz.

Conforme pesquisava, mais a curiosidade aguçava. Quase como numa caça ao tesouro, as fronteiras campineiras ficaram pequenas e Jorge foi parar em Belém, capital do Estado do Pará. "Foi a primeira vez que um historiador de Campinas foi a Belém para saber o que aconteceu com Carlos Gomes. Os livros falavam que ele foi para Belém e lá ele morreu. Terminava aí", afirma.

Em Belém, é só falar do maestro campineiro que as portas se abrem, garante Jorge, e todos querem ajudar.

O escritor conta que o maestro esteve na capital paraense em 1882, com a ópera O Guarani. A obra e o autor conquistaram Belém. "Quando o navio atracou, o povo estava todo no cais e começou a chover muito. Ele desceu, não aceitou a carruagem e foi a pé no meio do povo. O povo foi atrás dele abraçado, até o hotel onde ele ia ficar", relata.

A primeira atitude do maestro foi procurar por Hilário Gurjão, um compositor paraense que tinha estudado com Carlos Gomes em Milão. Gurjão estava muito doente, pobre, deprimido e esquecido. Morava em uma casa que com dificuldade se mantinha em pé.

À noite, acompanhado de um jovem espanhol, filho de um cônsul daquele país, que gostava de ópera e conhecia toda a obra de Gurjão, Carlos Gomes chegou à casa do amigo. Foi um encontro comovente. O maestro pediu a Idalia uma ópera de Gurjão. "Ele pegou a partitura dessa ópera, colocou no piano e dedilhou. Esse jovem espanhol cantou as árias (partes de uma ópera), foi um canto de lágrimas, eles choraram muito. Na hora da despedida, o Hilário Gurjão pegou a última riqueza que ele tinha, um par de abotoaduras de ouro e uma batuta, e deu para o Carlos Gomes reger O Guarani em Belém do Pará. Carlos Gomes pegou a partitura sem que ninguém percebesse e colocou várias notas de dinheiro no meio dela, fechou e entregou para ele. Foram cenas como essas que conquistaram a projeção de Carlos Gomes", garante Jorge.

Houve um projeto grande em Belém para a construção de um conservatório e na visão dos responsáveis apenas Carlos Gomes tinha competência para tal feito. Em 1895, o governador do Pará, Lauro Sodré, e o prefeito Antonio Lemos contrataram o maestro.

Em fevereiro de 1896, Carlos Gomes foi de Milão a Lisboa de trem e de lá pegou um navio para chegar a Belém. Ainda em Lisboa percebeu que tinha câncer na língua. Recebeu atendimento e foi alertado pelos médicos a não viajar, pois perceberam que ele não estava bem. "Mas ele não ouviu. Disse que se tivesse que morrer queria que fosse em solo brasileiro", destaca o escritor.

Já no Brasil, o governo paraense o instalou em uma boa casa e colocou uma junta de 23 médicos para cuidar dele. Lá Carlos Gomes morreu em setembro de 1896. Nesses poucos meses ele ainda deu tempo de ele fazer o regimento do conservatório e tomar posse.

Histórias

São histórias como essas que Jorge Alves de Lima vai revelar no documentário de 26 minutos que está sendo produzido e ficará disponível no site da Funarte. Participa também Ernani Aguiar, que é compositor, maestro e musicólogo, que se aperfeiçoou na Argentina e na Itália. Outro convidado é Inacio de Nonno, doutor em música pela Unicamp. O roteiro fica por conta de Geraldo Borowski, publicitário e jornalista com mais de 25 anos de atuação no mercado audiovisual.

Academia

Advogado e historiador, Jorge Alves de Lima, atual presidente da Academia Campinense de Letras, se tornou membro da instituição em 2012, depois de ter publicado o primeiro livro, Crônicas de Campinas, século XIX e XX, que reúne as crônicas publicadas no Correio Popular, entre outras.

Jorge tem oito livros publicados, sendo quatro dedicados ao maestro. Apenas a série sobre a febre amarela conta com três. O primeiro é 1889, O Ovo da Serpente, que conta como a doença praticamente dizimou a cidade. O segundo é 1890, O Retorno da Serpente, quando a cidade novamente enfrentou a doença. E, por fim, 1891, A Serpente Espreita Campinas. Em breve será lançado o 1892, sem nome definido ainda.