Publicado 08 de Março de 2020 - 5h30

Nada desejo além do que mereço. E tenho filhos, enteados, netos e uma boa penca de lembranças de companheiras mortas. E também de amigos; que embora sejam muitos se resumem em uma cadeira de bar vazia, em um banco de praça do Jardim Carlos Gomes, onde descansávamos nossas paixões nascidas pelos bares do Cambuí.

Nada desejo além do que mereço. E tive a mão da professora Aparecida, na Escola João Lourenço Rodrigues, guiando a minha para escrever as primeiras letras da cartilha; e ela tinha aroma de talco Ross, como a minha mãe e a minha avó Lucinda – de mãos tão quentes que não podia puxar bala de alfenim...

Já tive muito mais do que merecia. Vi um poeta de rua escrever versos em guardanapo e depois entregá-los a uma moça triste e solitária, sentada em uma mesa do City Bar. E ela abriu um enorme sorriso e depois o abraçou, com força e calor. E o poeta foi embora...

As mulheres mais interessantes são as que recebem canção, ou poema, humildes e anônimas em seus afazeres cotidianos, mas nem por isso incapazes de inspirar rimas e melodias, e até mesmo guerras e crimes passionais, sem contar as que derrubam ministros e chefes de estado. Diferentemente das mulheres ousadas, das que quebraram os tabus de seu tempo, como se diz por aí, a mulher do dia a dia, que banha seus filhos e os manda à escola, que prepara a roupa da família, que aguarda o marido chegar do trabalho, a canção que ela desperta se revela quando ao bardo é dado um momento de observá-la secando os cabelos ao sol da tarde ou retocando o batom enquanto aguarda o lotação. E nada, também, mais inspirador do que admirar os olhos maquiados da balconista da loja de cosméticos, sabendo que ela mora mais longe do que os seus sonhos de modelo de capa de revista ou passarelas internacionais, mas nem por isso menos bonita e real, ao alcance das mãos de um namorado suburbano.

Há em cada esquina e calçada das cidades uma profusão de canções e poemas a ser lida e cantada. À mulher que carrega sacolas de supermercado o poeta bem poderia dedicar odes ao elegante equilíbrio que ela mantém quando sobe no traiçoeiro degrau do lotação. São centenas delas, todos os dias, enfeitando o cotidiano da cidade, poemas que aguardam poetas atentos. E o que dizer da mulher que varre a cidade? Ora, ela carrega em seu semblante tudo o que necessita um Homero moderno para fazer um épico de todas as aventuras da humanidade, desde que ele consiga vê-la, é claro, como uma Penélope que borda a sujeira das ruas com a sua vassoura, pacienciosa e esperançada, aguardando o seu Ulisses voltar do botequim.

Noite sem mulher é dia perdido. Precisa não ser mulher de paixão, cama e motel. Mas há que se ter muito cuidado quando apenas uma mulher se encontra em nossa mesa. Ela pode estar apenas passando o tempo, embora não dê tal impressão. Ela tem olhos azuis, é naturalmente loira e fica ainda mais encantadora quando declama seus poemas. Ela é poeta. A poesia é mulher; a palavra é feminina; a rima, a métrica, a melodia, a música, tudo é feminino e chama-se Hilda Hist. Naquela madrugada de 71, Hilda passou a noite conosco, sorvendo incontáveis goles de bom uísque com gelo. De repente, ela se torna ainda mais bela quando o escultor Dante Casarini surge à sua frente. “Já não é mais noite. O meu Sol chegou”, disse ela a todos. E fomos todos embora porque a poeta decretou que a noite era finda.

O que eu quero dizer é que a mulher pode tudo. Até se apaixonar por um homem, o que é um dos seus melhores mistérios. Incrível!

Bom dia.