Publicado 07 de Março de 2020 - 5h30

A degradação do Centro de Campinas preocupa o setor imobiliário, que percebe a proliferação de imóveis comerciais desocupados e o aumento das críticas por parte dos empresários que convivem constantemente com atos de vandalismo e pichações. Vice-presidente do Setor de Comercialização da Associação Regional da Habitação (Habicamp), Douglas Vargas analisa que uma série de fatores tem contribuído para o agravamento do problema. Entre eles, os reajustes promovidos no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), o aumento no número de moradores de rua, o êxodo de públicos importantes como universitários e a falta de incentivos e ações efetivas da Administração Municipal.

Vargas considera que o processo de deterioração da região teve início em 2005, com a transferência do Fórum para a Cidade Judiciária. Hoje no Palácio da Justiça, na Praça Guilherme de Almeida, na Rua Regente Feijó, funciona apenas o Cartório Eleitoral.

Depois de 60 anos, a Pontifícia Universidade Católica (Puc) de Campinas deixou, em 2016, o Campus Central, popularmente chamado de Pátio dos Leões. Na ocasião, a faculdade de direito — a última que ainda ocupava o espaço — foi transferida para o Campus 1, no Parque Rural Fazenda Santa Cândida.

Essas mudanças afetaram, primeiramente, as locações residenciais e, consequentemente, causaram reflexos no comércio. A alta carga tributária foi reprovada: “Na comparação com quatro anos atrás, alguns imóveis registraram aumento de mais de 100%”. Criticou ainda que a revitalização da Avenida Francisco Glicério, entregue em meados de 2016, não produziu os efeitos esperados.

Além dos fatores locais, afirma que a crise econômica que o País atravessa, obviamente, não tem ajudado. Contudo, cobra do Executivo medidas mais direcionadas a impulsionar o Comércio e as locações de imóveis na região central. Vargas diz que o Município deveria adotar modelos como Belo Horizonte.

A capital mineira apresenta alamedas em sua urbanização, que permitem que os bares sejam instalados de melhor forma. “Imagina a Glicério, à noite, com mesas nas calçadas: que bonito seria”, disse. Para ele, são necessárias também mais ações culturais na área.

Comércio

Proprietário da Martini Ferramentas, que tem sua segunda loja instalada na Rua Dr. Costa Aguiar, desde 1967, Manoel Tancredo, de 85 anos, esbraveja que o valor do IPTU é um absurdo. O valor pago pela sua empresa supera os R$ 150 mil. O comércio, frisa, "como todos sabem, está estagnado". O empresário diz que se assusta ao ver os inúmeros imóveis comerciais fechados no Centro.

A sonhada reestruturação da área, lamenta, já foi prometida por diversos prefeitos, mas nunca saiu do papel. A esperança é que a economia nacional melhore. Recentemente, o estabelecimento teve sua fachada pichada. Como uma nova pintura já estava programada para o meio de 2020, Tancredo não lamentou tanto o infeliz episódio. Estas ações causam transtornos ao Poder Público e ao setor privado. Cálculos feitos em 2019, pela Prefeitura e pela Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic) mostram que os pichadores provocam prejuízos anuais de mais de R$ 1,6 milhão ao poder público e aos comerciantes do Centro.

Funcionário do Estacionamento Central Park, localizado no cruzamento da Rua José Paulino com a Avenida Benjamin Constant, Maicon Oliveira, de 35 anos, se queixa que o vandalismo complica bastante o resultado da empresa. Muitos clientes, revela, tinham receio de fazer uso dos serviços oferecidos porque vários imóveis do entorno e o próprio estabelecimento estão pichados. Diz, entretanto, que após deixar o carro lá pela primeira vez, mudam de ideia devido à segurança ofertada.

Há sete anos trabalhando lá, pensa que as condições do Centro pioraram consideravelmente de 2016 para cá. "Antigamente, repintávamos as coisas e levava uma semana para picharem. Agora, é de um dia para o outro", afirmou.

Um retratado claro de que muitos imóveis estão para alugar ou vender é visto num trecho de menos de 500 metros entre a Estação 1 Real, loja instalada na Avenida Marechal Floriano Peixoto, em frente à Estação Cultura, e a paralela Avenida dos Expedicionários. Na mesma calçada, existem seis salões vagos.

Gerente da Estação 1 Real, Débora Horikawa, de 24 anos, comenta que o movimento de moradores de rua é grande. Porém, alguns são clientes devido ao valor baixo dos produtos vendidos. A jovem comentou que o proprietário do negócio orientou todos os funcionários a não reagirem caso ocorra alguma tentativa de assalto. O policiamento na área, comemora, é constante. O caixa Éder Tachibana, de 52 anos, informou que o comércio funciona lá desde novembro passado. Antes, o espaço abrigava um açougue, que fechou.

Dados da Acic apontam 1.670 estabelecimentos

O Comércio central de Campinas movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano. Os dados são do Departamento de Economia da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic). No último levantamento realizado pela entidade, em julho de 2019, havia 1.670 estabelecimentos em funcionamento na área, sendo 820 lojas, 730 bares e 120 restaurantes. As estatísticas apontavam para 81.750 trabalhadores formais, dos quais 33.100 atuavam no comércio e 48.650 nos serviços.

“Atualmente, existem 16.600 moradores na área central de 1.285 Km2, com uma densidade populacional de 12.918,29 habitantes/Km2”, detalhou o economista da Acic, Laerte Martins. As informações detalharam ainda que o comércio mais antigo na área central é o centenário Eden Bar e Restaurante, na Rua Barão de Jaguara, em funcionamento desde 1889.

O valor médio de locação de imóveis comerciais em Campinas registrou alta de 5,28% entre janeiro de 2019 e janeiro de 2020, segundo o último estudo do Índice FipeZap divulgado em meados de fevereiro. O valor ficou em R$ 31,23/m² no primeiro mês deste ano e superou o assinalado nas capitais Porto Alegre (RS), Belo Horizonte (MG) e Curitiba (PR), que fixaram R$ 30,55/m², R$ 29,40/m² e R$ 26,74/m², respectivamente. A liderança do ranking pertence a São Paulo com R$ 43,32/m². (DC/AAN)