Publicado 05 de Março de 2020 - 5h30

Nunca soube o nome dela. Apenas que tinha os olhos já desfolhados e com seus úteros aéreos moribundos. Era uma mulher velha e mesmo assim era imponente e bela. E por ela me apaixonei; sua pele estava lascada e vi seus braços desesperados por querer abraçar um pássaro, uma abelha, uma pomba qualquer. Fiz o que pude para evitar suas dores, sempre lhe passando a mão na tosca pele, olhando-a como somente os homens apaixonados olham. E assim vim pela vida nossa, ela e eu, ela cada vez mais precisada de abraços e eu muito mais de amor.

De um jeito ou de outro, éramos a mesma coisa pela paisagem da vida, com as suas calçadas alegres de meninos, de mulheres com seus filhos e cachorros. Não faz muito tempo que a vi, coisa de uns vinte anos atrás. Ela tímida e eu ainda mais. É difícil trocar dedos de prosa com quem se ama, por mais amor que se tenha. Ama-se apenas. E quem ama sabe que tudo o que se quer é evitar qualquer aborrecimento, qualquer coisa que possa vir a macular tamanho amor. E assim a gente fica só olhando com olhos pidonhos por um pouco que seja de beleza, de carinho e compaixão.

Não sei direito o que leva a gente a amar. E foi apenas pela sua presença, acho eu, que aprendi a amar. Afinal ela sempre estava no caminho dos meus olhos. E sempre estava lá, todas as manhãs, tardes, noites e madrugadas.

Naqueles últimos meses eu vinha preocupado com os seus olhos desfolhados. Acho que é o inverno, me convenci, pois nem todo mundo gosta de frio. Mas ela não estava friorenta. Estava somente cansada, embora com vontade de flores e passarinhos. E às vezes se desesperava e erguia seus braços pedindo um abraço de vento e de água. E tudo lhe foi negado. Nem veio o vento e nem a tão sonhada chuva. E em certas noites de frio pensei em ir procurá-la para lhe dar um pouco do meu calor, um beijo, dormir abraçado, um só querer de chá quente, bolo de fubá, calor de ninho de pardal...

Certo dia de agosto, ela morreu. Sem estrondo, quase parecendo uma grama velha caindo. E arrebentou a rede elétrica da rua, causou transtorno a todos os homens da rua e deixou a nu todas as suas velhas raízes cansadas. Eu a vi morrer, numa calçada da Rua Sete de Setembro. E depois ser dilacerada pela motosserra de um bombeiro. E lá se foi mais uma paisagem de amor desaparecendo dos meus olhos. E apesar de tantos depois até hoje lembro da triste música da motosserra...

A música, ou qualquer outra expressão de Arte, devolve o homem à sua origem, onde, lá dentro do útero de sua mãe, ele ouvia os sons das vísceras e o bater do coração materno. E digo que isso é verdade. O homem é feito de música. A palavra nasceu muito tempo depois. E toda a vez que chove eu adormeço rapidamente. E bendito sejam os trovões que ressoaram em meus ouvidos e os raios que brilharam nas paredes do meu quarto, os primeiros quadros que as minhas retinas assistiram. E quanta percussão senti quando as vidraças da casa tremiam diante de tamanha música.

Não há como evitar a música dos pássaros e do canto dos homens que esperançaram madrugadas insones. E assim aprendi a sentir a música. Beethoven escreveu grande parte de suas obras completamente surdo. O som só é digno da memória das carnes que se nega ao bastardo silêncio das almas que vagam pelo vácuo das suas moléculas. A arte, o prazer do tato, dos olhos, dos ouvidos, da língua, o aroma da vida, anda em cada esquina dos sentidos. E não há como evitá-la. Pode-se proibi-la, mas jamais evitar que ela renasça no dia seguinte. O homem, enfim, pode viver sem Arte o seu cotidiano. Mas à trincheira da alma ele a produzirá e a guardará para o final de seus tempos. O resto é a decadência sensorial, o deserto brega e pagodeiro das almas. Boa sorte, Regina Duarte.

Bom dia.