Publicado 01 de Março de 2020 - 5h30

Um ou outro carro descia a José Paulino. Fui me esgueirando pelas maltratadas calçadas, buscando fugir do sol que parecia morno mas que ardia feito pimenta. Uma jovem família descia alegremente à minha frente: o marido de bermudas, a esposa de pretinho básico e uma simpática criança que ia voando pelas mãos dos pais, pulando as sarjetas e os buracos. Meia dúzia de jovens estavam sentados no meio fio da calçada, no recuo do estacionamento de uma loja de noivas, estampando nos rostos uma noite maldormida, cabelos desalinhados e roupas amarrotadas da moda. Mas aparentavam um quê de tristeza, um conformismo de aposentado, de fim de Carnaval...

Fui ao caixa eletrônico e uma fila enorme se formava diante de um deles. Eram oito caixas para se fazer saque e todos estavam disponíveis. Agi automaticamente e quase entrei na fila, achando que os demais estariam fora do ar. Mas notei que um deles estava com a tela normal e fui utilizá-lo, com sucesso, conforme a mensagem reconfortante da tela. Saí do banco intrigado com a estranha fila e só me dei conta do fato quando lembrei que o primeiro caixa da agência é destinado a pagar valores quebrados de um, dois, três reais, que é o dinheiro contado para a condução, cigarro e cerveja — já que hoje é um dia triste de Cinzas e a cachaça barata talvez seja uma boa companhia contra a solidão...

A Quaresma chegou e a velha árvore parece não ter se dado conta disso. Sisuda, ela é sentinela e testemunha meio que secular das serestas que aconteciam nesse lado antigo do centro da cidade, próximo ao Externato São João, hoje decepado pela via expressa que corre ao lado da bicentenária rua Aquidabã. Está com poucas flores a quaresmeira. Talvez não ande mais preocupada com os pecados de carnaval. Ou talvez ache exagero religioso condenar as pessoas que procuraram escapar da monotonia e caíram na farra, na esbórnia, como diziam os antigos.

Não consegui ficar longe dos confetes e serpentinas, da globeleza e dos desfiles das escolas de samba. Fui mais um folião que se aposentou e afundou o traseiro no sofá da roça. De certa forma, se a gente lembrar de como tudo começou, corsos, blocos de sujo, marchinhas ingênuas, outras picantes, desfile de escola de samba não tem nada a ver com o Carnaval e nem com o samba. Virou um extraordinário espetáculo ao ar livre que só pode ser comparado aos exércitos romanos do Cecil B. de Mille, todo mundo marchando contra o cronômetro e rezando pela paciência dos jurados e pela robustez do eixo dos carros alegóricos, sem contar com os comerciais de televisão que exigem pontualidade britânica.

Tempos quaresmais, santos cobertos, é chegada a hora dos penitentes orarem pelos pecados do Carnaval, que não foram tão graves assim, como me diz a quaresmeira, a minha velha sentinela da rua José de Alencar...Mas não vi uma só testa carregando a cruz de cinza que nos redime da alegria do Carnaval. Talvez porque os carnavais já não são mais tão alegres assim e, portanto, pecadores de si mesmos.

Na Quarta de Cinzas, andei pela Praça Dr. Quirino, onde rolou carnaval pesado durante quatro noites, e não achei um confete que fosse pra remédio. Andei pelo Largo Rosário e a cena se repetiu: nada de confete e serpentina. Pois é, terei mais uma quaresma triste pela frente, sem confetes, serpentinas, odaliscas e piratas bêbados dormindo abraçados nos bancos e gramados do Jardim Carlos Gomes. Quem sabe no ano que vem...

Bom dia.