Publicado 08 de Março de 2020 - 8h26

Por AFP

"Sou Jaime. Esta semana cometi violência verbal e emocional contra minha companheira. Estou aqui para apoiar e ser apoiado", diz este mexicano de meia idade, que ouve um uníssono "eu te apoio" após dar seu relato a uma dezena de homens reunidos na Cidade do México.

Em uma improvisada sala de terapia, em um casarão no bairro de Roma, centro da capital mexicana, Jaime e outros homens como ele, com idades entre 20 e 70 anos, fecham os olhos, inspiram e expiram.

Em seguida, põem a mão sobre o coração enquanto, em um exercício de honestidade, refletem sobre as violências que praticam contra as mulheres e as consequências que acarretam.

A crise de feminicídios que vive o México, onde diariamente são assassinadas dez mulheres, choca a sociedade, levando cada vez mais homens a questionarem o machismo arraigado dominante e tentar erradicá-lo.

"Nunca fui violento fisicamente com uma mulher, mas sim de outras formas: emocionalmente, verbalmente e sexualmente porque alguma vez fui infiel. Isso me fez me reconhecer e querer me transformar", diz à AFP este arquiteto de 63 anos, que esconde seu sobrenome para proteger sua família.

Jaime chegou à consultoria Gênero e Desenvolvimento (Gendes) há dois anos por recomendação de sua companheira após enfrentar uma crise conjugal.

Fundada em 2009 - embora realizasse um trabalho prévio de seis anos -, a Gendes realiza pesquisas e ativismo com vistas a reabilitar homens machistas.

"O masculino sempre foi associado com a violência, o domínio e a força. Mas atualmente isto está mudando, as novas masculinidades propõem a ideia de promover o tratamento igualitário entre homens e mulheres", explica Mauro Vargas, diretor da Gendes.

O psicoterapeuta e palestrante tenta com que os homens que vão às suas reuniões - cerca de 1.200 por ano no México, segundo seus dados - compreendam e enfrentem os diferentes tipos de violência contra a mulher: sexual, física, econômica, verbal e cibernética, com perspectiva de gênero.

A causa feminista alcançou o topo da agenda no México depois de vários anos de negligência governamental e autoridades ineficazes, uma situação que persiste no governo do esquerdista Andrés Manuel López Obrador.

Centenas de mulheres indignadas têm ido às ruas exigindo empatia e ações concretas para deter os feminicídios, que dispararam 136% entre 2015 e 2019, segundo cifras oficiais.

Entre os brutais crimes no mês passado, o cometido contra Ingrid Escamilla, de 25 anos, esfaqueada e degolada pelo companheiro, e o de uma menina de sete anos, sequestrada para a prática de abuso sexual e depois assassinada, foram a gota d"água.

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