Publicado 07 de Março de 2020 - 14h17

Por AFP

Luisa debate com as mães do jardim de infância de seu filho sobre como explicar para os pequenos o motivo pelo qual não vão trabalhar na segunda-feira. Em um restaurante da Cidade do México, Denisse, uma psicóloga de 28 anos, planeja com colegas sua participação no protesto contra os feminicídios no país.

A quase dois mil quilômetros de distância, em Ciudad Juárez, Lydia organiza as manifestações locais e, na fronteira sul mexicana, as militantes do movimento zapatista fazem o mesmo.

Na década de 1990, centenas de mulheres apareceram mortas em Ciudad Juárez, que fica na fronteira com os Estados Unidos e é um polo da indústria maquiladora. Todas sob um mesmo padrão de tortura sexual que expôs de maneira brutal a violência de gênero no país.

Este ano, as mexicanas se preparam para uma grande marcha em 8 de março e para a jornada #UndíaSinNosotras (#UmDiaSemNós) na segunda-feira, que busca chamar a atenção para o crescente feminicídio no México. Em 2019, foram registrados 1.006 casos, conforme cálculo oficial que os especialistas consideram conservador.

Em fevereiro passado, as mortes de Fátima - uma menina de 7 anos que sofreu abuso sexual antes de ser assassinada - e de Ingrid - uma jovem de 25 anos também cruelmente assassinada por seu parceiro - foram a gota d"água para mobilizar mulheres que acumulam anos de medo e de revolta.

A indignação cresceu de tal maneira que Las Brujas del Mar, um pequeno coletivo feminista de Veracruz, viu sua convocação "¡El nueve nadie se mueve!" (em tradução livre "No dia nove ninguém se mexe!") explodir nas redes sociais em meados de fevereiro. O coletivo Primero Somos, da Cidade do México, também propôs um dia sem mulheres em 9 de março.

"Essa ideia circula (entre as organizações), e nós decidimos colocá-la nas redes sociais", disse à AFP Arrusi Unda, uma publicitária de 32 anos do Las Brujas del Mar, reconhecendo que elas "nunca, nunca" imaginaram "a loucura" que seria.

Unda fez a imagem da convocação em seu celular, de forma improvisada, pois nunca cogitou que a iniciativa ganharia tanta força. Tampouco que receberiam ameaças. O fato é que o tema ganhou espaço na agenda nacional.

Depois dos homicídios de Fátima e Ingrid, a primeira reação do presidente Andrés Manuel López Obrador causou ainda mais mal-estar, ao afirmar que os feminicídios obedeciam à decomposição do "período neoliberal" e que, por trás das manifestações, estava a oposição "conservadora".

O governo federal ainda tentou, no último minuto, reduzir a tensão com uma conferência das secretárias de Estado. Uma delas, a ministra do Interior, Olga Sánchez Cordero, alegou que as mulheres "não estão insatisfeitas com o governo, estão insatisfeitas com a violência que continuam sofrendo".

Neste momento - disse à AFP a fundadora do coletivo Las Constituyentes Feministas CDMX, Yndira Sandoval -, "o feminismo põe o Estado mexicano à programa. É um teste para a democracia".

"Não se poderá garantir a democracia, se não se garantir a condição e a vida das mulheres", acrescentou.

As feministas também temem o "oportunismo" do setor empresarial, que rapidamente autorizou suas funcionárias a terem a segunda-feira como dia livre.

"Nosso sistema é tão patriarcal que, quando as mulheres decidem parar, os homens se apressam para nos dar permissão", apontou Sandoval.

Se os empresários pretendem, de fato, sair da ambiguidade, serão obrigados a resolver a questão da desigualdade salarial, a paridade de gênero na hierarquia do mercado e a adotar medidas para evitar o assédio no ambiente de trabalho, argumenta a ativista.

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