Publicado 07 de Março de 2020 - 12h07

Por AFP

O Haiti tem, enfim, um novo governo, mas sem um Parlamento capaz de lhe dar legitimidade e sem projeção eleitoral, o que mantém o país paralisado por uma crise política com consequências sociais, econômicas e de segurança potencialmente devastadoras.

Há mais de um ano, este país caribenho é liderado por um governo interino. Joseph Jouthe, nomeado na segunda-feira (2), é o quinto primeiro-ministro escolhido pelo presidente Jovenel Moïse desde que este chegou ao poder em fevereiro de 2017.

Nem a política geral de Jouthe, nem seu gabinete, anunciado na quarta-feira (4), poderão obter, porém, a aprovação de deputados e de senadores: o Parlamento haitiano se encontra sem função desde janeiro, já que não houve eleições legislativas no outono (boreal).

"O Haiti não tem uma lei eleitoral nem um orçamento eleitoral. O presidente Moïse poderia aprovar uma lei eleitoral e um orçamento por decreto, mas os protestos populares e a dissidência deixam claro que isso não seria considerado legítimo", declarou na quarta-feira diante da Comissão de Direitos Humanos do Congresso dos Estados Unidos Ellie Happel, advogada e diretora do programa do Haiti da Global Justice Clinic.

Moïse, que assumiu o cargo depois de um processo eleitoral que durou quase dois anos e que contou com a participação de apenas 20% do eleitorado, era relativamente desconhecido do público até anunciar sua candidatura presidencial.

Criticado desde o primeiro momento por seus principais oponentes, o líder haitiano rapidamente atraiu a insatisfação da população. Manifestações a favor de sua renúncia se espalharam por todo país.

Em uma nação onde mais de 60% da população vive abaixo do limiar da pobreza - com menos de US$ 2,41 por dia, segundo o Banco Mundial -, os protestos contra Moïse aumentaram em maio de 2019, quando o Tribunal Superior de Contas anunciou suspeitas de que ele estaria envolvido em um grande escândalo de corrupção que remonta a uma década.

No outono (boreal) de 2019, os repetidos protestos e barricadas erguidos nas principais estradas do país bloquearam quase todas as atividades. A maioria das escolas ficou mais de dois meses fechada.

Moïse disse a seu gabinete que restaurar a segurança, assim como garantir a livre-circulação de pessoas e de bens em todo país, é uma prioridade. A capacidade do governo para intervir parece, no entanto, bastante baixa.

"Um novo governo em um contexto tão complexo, sem recursos orçamentários adequados, sem um clima pacífico, sem um diálogo nacional real e sem um desejo real de se afastar das práticas corruptas não fará milagre", disse o economista haitiano Etzer Emile.

Além da paralisia política, o Haiti viu um aumento nos sequestros com pedidos de resgate nas últimas semanas, mais um grande golpe para a esperança de recuperação econômica.

"A miséria está aumentando. Os investimentos, nacionais e estrangeiros, nunca foram tão fracos como nos últimos anos", acrescentou Emile.

Um terço dos cerca de 11 milhões de haitianos precisa de ajuda humanitária urgente. Entre eles, um milhão de pessoas com insegurança alimentar severa, um nível que precede a fome total, segundo o sistema de classificação usado pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU.

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