Publicado 07 de Março de 2020 - 8h37

Por Estadão Conteúdo

A capa de um livro com um teclado derretido chamou a atenção do diretor William Pereira. No romance O Náufrago, de Thomas Bernhard, um encontro entre três colegas pianistas vira uma tempestade para o talento e a vida de todos.

A versão do diretor para o palco estreou no sábado, 7, com uma adaptação que exigiu uma narrativa diversa da empreitada solo do personagem retratado pelo escritor austríaco. Na trama original, o ano é 1953 e Glenn Gould é um exímio pianista e o mais talentoso do século. Ele toca pela primeira vez para dois colegas de classe uma interpretação das Variações Goldberg, de Bach, e inicia uma relação destrutiva que deixará marcas profundas.

Nascido no ano de 1932, em Toronto, no Canadá, Gould fez sua primeira apresentação pública aos 13 anos. O sucesso chegou quando o pianista foi convidado pela Columbia Records a gravar as 30 Variações Goldberg, alcançando recordes de venda inéditos para a época. Ele também é lembrado por realizar uma turnê na União Soviética, em plena Guerra Fria, e ser o primeiro cidadão norte-americano a se apresentar ali depois da Segunda Guerra. "Sua interpretação das 30 Variações foi mais inspiradora, era única na época", conta Pereira.

O relato trazido no romance por um dos pianistas encontrou obstáculos para a encenação de Pereira. "Fiz a primeira leitura na forma de um solo e percebi que precisava de uma narrativa com mais diálogos. A impressão que tive era que parecia uma leitura dramática, mais próximo da literatura que do teatro."

O contraponto se deu no elenco de Luciano Chirolli e Dagoberto Feliz. Em cena, a dupla está apartada em dois planos e tempos distintos. O primeiro é o narrador e protagonista. Já Feliz interpreta Wertheimer, uma figura citada durante todo o romance. Sentado em um piano de cauda, o ator e músico representa um alter ego do protagonista, uma sombra que o acompanha. "Mais que uma direção teatral, concebi a peça como uma regência musical, guiando os ritmos e as pausas dos atores", explica o diretor.

Em meio a tantas memórias, Pereira conta que o cenário de O Náufrago traz consigo suas próprias histórias. Segundo ele, o piano tocado por Dagoberto foi de Guiomar Novaes, musicista paulista, que se tornou importante divulgadora da obra de Villa-Lobos no exterior.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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