Publicado 05 de Março de 2020 - 10h37

Por AFP

Ao anoitecer, na cidade de Poros, no nordeste da Grécia, os tratores pararam, e as ruas estão desertas. Vestido com trajes militares, Sakis segue para a margem do rio Evros, na fronteira com a Turquia, "para defender os portões da Grécia e da Europa".

No final deste pequeno vilarejo agrícola, o rio, relativamente estreito, é um local de passagem adequado para os refugiados que entram na Grécia. Desde 28 de fevereiro, quando a Turquia decidiu abrir suas portas, policiais, fazendeiros, caçadores e pescadores bloqueiam qualquer acesso ao território grego.

Eles querem "evitar uma invasão", explica Sakis, um agricultor de 38 anos. Armado com um rifle de caça, patrulha a zona.

"Durmo mal. Dia e noite, faço rondas com meu carro ao longo da estrada que acompanha o rio para ver se algum barco tenta parar na costa grega", relata, exausto.

Assim que um migrante é localizado, a polícia, ou o Exército, são alertados para levar o refugiado. Giokas Xanthos pesca no Evros e conhece os pontos sensíveis, onde os traficantes deixam os migrantes: "temos um conhecimento perfeito do terreno, o que pode servir às autoridades".

Ainda traumatizada pela crise migratória de 2015, a população local está mergulhada em uma retórica xenófoba e se organiza para que as fronteiras gregas permaneçam vedadas.

"Com um vizinho como a Turquia, vivemos uma ameaça permanente. Precisamos de ajuda concreta da Europa, e não apenas de promessas", diz o prefeito de Poros, Athanassios Pemusis, que exorta seus cidadãos a "apoiarem as forças gregas em uma luta difícil".

Desde que o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, abriu as fronteiras de seu país, dezenas de milhares de refugiados convergiram para a Grécia. No posto fronteiriço de Kastanies (Pazarkule, no lado grego), onde os migrantes estão reunidos em uma zona tampão, já houve tumultos nos últimos dias.

O chefe do café "Jojo Wild Rose" afirma que não há milícias nesta área, "pois com as cercas os migrantes não podem passar". Mais ao sul, porém, onde um grupo de migrantes tenta fazer incursões ao longo dos 212 quilômetros de fronteira porosa, há patrulhas formadas por "ex-oficiais militares aposentados há anos", assegura.

Desde terça-feira, Dimitris Kolgionis, vice-prefeito de Feres, município de 5.000 habitantes de que depende Poros, organizou turnos para monitorar a fronteira: "500 pessoas responderam e se revezam em faixas horárias".

Das 9h às 13h, na quarta-feira, cabia a Giorgos Yumis, aposentado, participar da patrulha cidadã: "Toda a região de Evros está mobilizada. Estamos em uma zona de guerra e nosso território deve ser defendido".

Kizialidis Kizialis, 60 anos, agricultor de Poros, confessa "ter medo dos migrantes", mas comemora o "bom trabalho do governo e da polícia".

Em Poros, a passagem de migrantes é quase impossível. A Grécia dobrou suas patrulhas em toda fronteira terrestre e marítima e pediu o envio de reforços da respectiva agência europeia, a Frontex.

Segundo o governo grego, cerca de 7.000 tentativas de entrada ilegal na região foram impedidas em 24 horas, e 24 migrantes, a maioria do Afeganistão e do Paquistão, foram detidos entre quarta e quinta-feiras.

Na segunda-feira, cerca de 20 tratores com potentes faróis chegaram perto do rio para iluminar a outra margem e impedir que os refugiados passassem para o lado grego.

"Uma demonstração de força eficaz, pois várias pessoas foram presas", observa Athanasios Pemusis.

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