Publicado 05 de Março de 2020 - 9h17

Por AFP

A afegã Roya Sadat viveu sua primeira filmagem com medo de um ataque dos talibãs, inimigos do cinema e das mulheres ativas. Dezoito anos depois, enquanto os talibãs negociam sua volta ao poder, a corajosa cineasta segue defendendo suas compatriotas, filme após filme.

"Envolvia os filmes de plástico, porque pensava que se eles se metessem conosco, eu os jogaria no deserto", lembra a cineasta que usa véu negro na cabeça. "Queria salvar os filmes", diz.

No poder entre 1996 e 2001, os talibãs acabavam de ser expulsos por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos que invadiu o Afeganistão após os atentados de 11 de setembro de 2001. Eles, os mesmos que durante cinco anos jogaram televisores nas ruas e enclausuraram as mulheres, estavam a poucos quilômetros do local de filmagem, em sua província natal Herat, no oeste do país.

"Caminhava pelos campos para comprovar que não estavam minados", lembra Roya, uma das poucas cineastas do Afeganistão, um país classificado com frequência como o pior do mundo para mulheres.

Após tantos riscos, "Three Dots" (Três Pontos), um curta-metragem que abordava os casamentos forçados, frequentes no Afeganistão, foi premiado em muitos festivais internacionais. E sua carreira deslanchou.

Roya fundou uma produtora com sua irmã, a Roya Film House, cujos filmes, sempre centrados na dolorosa vida cotidiana das mulheres afegãs, ganharam vários prêmios internacionais.

Em 2013, ela criou o primeiro festival de cinema feminino do Afeganistão. Cinco anos depois, recebeu o Prêmio Internacional às Mulheres de Coragem, entregue pela primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump.

Várias vezes ameaçada de morte pelos mais conservadores, Roya Sadat "se nega a ficar calada", escreveu o Departamento de Estado dos EUA.

"Examinando a cultura afegã através do cinema, Sadat desempenha seu papel para transformar seu país em um lugar melhor para as mulheres e as meninas", completou.

A recompensa chegou com o lançamento do longa-metragem "A Letter to the President" (Uma Carta para o Presidente), que conta a história de uma mulher presa por ter matado, por acidente, seu marido violento. Um novo tabu afegão abordado pela diretora.

"Tinha medo de reações ruins", disse em entrevista à AFP. Mas se sentiu aliviada quando, durante uma projeção do filme em Cabul, o público aplaudiu a heroína após ter dado um tapa em seu marido depois de apanhar.

Abordando os direitos das mulheres em seus filmes e documentários, Roya Sadat quer reparar os danos de 40 anos de guerra na sociedade e cultura afegãs.

"Talvez seja fácil reconstruir um prédio destruído pela guerra, mas não é (fácil) mudar a mentalidade das pessoas", afirmou, insistindo em que "a única forma de fazer isso é pela cultura, pelos meios de comunicação e, principalmente, pelo cinema".

Os filmes de Roya Sadat, "centrados em mulheres e destinados ao público feminino, têm impacto direto nas mulheres na sociedade", comenta Latif Ahmadi, cineasta e ex-diretor do Instituto de Cinema Afegão.

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