Publicado 04 de Março de 2020 - 19h37

Por AFP

Voluntários e bombeiros intensificaram nesta quarta os trabalhos de resgate em comunidades reduzidas a escombros no litoral paulista, onde as fortes chuvas deixaram ao menos 24 mortos e quase trinta desaparecidos em menos de dois dias.

Nas últimas semanas, os temporais inusitadamente intensos provocaram dezenas de mortes e milhares de desabrigados na Região Sudeste.

Especialistas explicam que novos padrões climáticos surgiram, mas a ação humana teve papel fundamental para criar as condições que geram essas tragédias na zona mais rica e mais povoada do país.

No morro Barreira de João Guarda, no Guarujá, dezenas de pessoas retiravam troncos e montes de terra em busca de sobreviventes. Onde antes existiam cerca de quarenta casas agora só há escombros, utensílios de cozinha, eletrodomésticos destruídos e outros objetos da vida doméstica.

Yago de Sousa Nunes, de 24 anos, corria de um lado para o outro, frenético, ainda com esperanças de que as equipes de resgate encontrem vivos a sua mãe, padastro e cunhada, atingidos pelo desabamento do morro Barreira de João Guarda, no Guarujá.

"Por várias oportunidades a prefeitura veio aqui, tinham ciência que era zona de risco e essa semana ia cair essa quantidade de água. Tinham as previsões, mas não vieram para retirar os moradores", diz indignado o jovem, que trabalhava na cidade vizinha, Santos, no momento da tragédia.

Dezenas de voluntários trabalhavam perto do morro junto aos bombeiros, tentando encontrar sobreviventes.

Os bombeiros estimam que cerca de 20 pessoas estejam soterradas no local, mas os moradores do local afirmam que o número é maior.

A formação de nuvens no centro do país e a ausência de fenômenos como o El Niño e La Niña, que reduzem o volume das chuvas e aumentam a temperatura, permitiu que as chuvas que entram pelo sul do país chegassem no Sudeste, segundo Andrea Ramos, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Embora os temporais sejam esperados durante o verão, pode-se observar "um aumento dos eventos extremos, por exemplo quando a chuva que devia cair digamos, em três dias, cai em menos de 24 horas", explica Ramos à AFP, sem vincular diretamente o fenômeno às mudanças climáticas, por falta de estudos detalhados.

"Tivemos nesse verão dois cenários mais extremos. A primeira metade da estação foi mais seca", mas "em meados de janeiro começou uma temporada de muitas chuvas", afirma Marcelo Seluchi, do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

"O planeta está esquentando, isso é fato. Temos mais umidade no planeta do que há 50 ou 100 anos atrás, o que significa que ainda que os sistemas meteorológicos sejam os mesmos, hoje há mais potência para gerar chuvas", comenta.

Ambos especialistas concordam que o crescimento das cidades e da ação humana impactam o meio ambiente e, por consequência, o clima.

"O aumento populacional e o crescimento das cidades significa que substituímos a vegetação por concreto e aqui temos um problema muito antigo no Brasil: há muitas construções em áreas de risco", ressalta Seluchi à AFP.

Mais da metade da população das capitais do Rio, São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais está situada em zonas de risco e 80% desse total "tem vulnerabilidade alta ou muito alta, vivem em casas precárias, com densidade elevada e alta porcentagem de crianças e idosos".

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