Publicado 04 de Março de 2020 - 14h47

Por AFP

Temporais inusitadamente intensos deixaram dezenas de mortos e milhares de desabrigados nas últimas semanas na Região Sudeste. Especialistas explicam que novos padrões climáticos surgiram, mas a ação humana teve papel fundamental para criar as condições que geram essas tragédias na zona mais rica e mais povoada do país.

O ano começou com mais de 50 mortos em Minas Gerais e aumentou neste final de semana com cinco mortos no Rio de Janeiro e 19 em São Paulo, onde ainda há uma série de desaparecidos. As imagens de inundações e desabamentos não param de aparecer nos noticiários. Cenas de tristeza, pânico e desespero circulam nas redes sociais.

O volume de água que caiu nos quatro estados do Sudeste, onde mais de três milhões de pessoas vivem em zonas de risco, alcançou recordes históricos nesses meses.

Yago de Sousa Nunes, de 24 anos, ainda espera que as equipes de resgate encontrem vivos a sua mãe, padastro e cunhada, atingidos pelo desabamento do morro Barreira de João Guarda, no Guarujá.

"Por várias oportunidades a prefeitura veio aqui, tinham ciência que era zona de risco e essa semana ia cair essa quantidade de água. Tinham as previsões, mas não vieram para retirar os moradores", diz indignado o jovem, que trabalhava na cidade vizinha, Santos, no momento da tragédia.

Dezenas de voluntários trabalhavam perto do morro junto aos bombeiros, tentando encontrar sobreviventes. Os bombeiros estimam que cerca de 20 pessoas estejam soterradas no local, mas os moradores do local afirmam que o número é maior.

A formação de nuvens no centro do país e a ausência de fenômenos como o El Niño e La Niña, que reduzem o volume das chuvas e aumentam a temperatura, permitiu que as chuvas que entram pelo sul do país chegassem no Sudeste, segundo Andrea Ramos, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Embora os temporais sejam esperados durante o verão, pode-se observar "um aumento dos eventos extremos, por exemplo quando a chuva que devia cair digamos, em três dias, cai em menos de 24 horas", explica Ramos à AFP, sem vincular diretamente o fenômeno às mudanças climáticas, por falta de estudos detalhados.

"Tivemos nesse verão dois cenários mais extremos. A primeira metade da estação foi mais seca", mas "em meados de janeiro começou uma temporada de muitas chuvas", afirma Marcelo Seluchi, do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

"O planeta está esquentando, isso é fato. Temos mais umidade no planeta do que há 50 ou 100 anos atrás, o que significa que ainda que os sistemas meteorológicos sejam os mesmos, hoje há mais potência para gerar chuvas", comenta.

Ambos especialistas concordam que o crescimento das cidades e da ação humana impactam o meio ambiente e, por consequência, o clima.

"O aumento populacional e o crescimento das cidades significa que substituímos a vegetação por concreto e aqui temos um problema muito antigo no Brasil: há muitas construções em áreas de risco", ressalta Seluchia à AFP.

Mais da metade da população das capitais do Rio, São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais está situada em zonas de risco e 80% desse total "tem vulnerabilidade alta ou muito alta, vivem em casas precárias, com densidade elevada e alta porcentagem de crianças e idosos".

Seluchi argumenta que o Brasil "avançou bastante em termos de vigilância e de envio de alertas", ainda que o tamanho da população em áreas de risco dificulte a evacuação das mesmas.

"Também acontece o fato de que nem todos recebem os alertas e outros não o respeitam por falta de entendimento (em relação ao assunto) ou por medo de que suas casas sejam roubadas. o tema habitacional é muito complexo", afirma.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, causou indignação ao declarar no último domingo que "as pessoas gostam de morar ali (...) para gastar menos tubo (canos) e colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo", disse.

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