Publicado 07 de Fevereiro de 2020 - 5h30

Há inúmeros exemplos de pessoas que se dedicam à causa pública e colhem decepções, sofrimentos e muitos outros dissabores. É da natureza humana sugar aquele que pode oferecer algo e, em seguida, descarta-lo. Em busca de quem o tenha substituído ou à procura de outra fonte de benesses. Pobre de quem acredita que o cargo será infinito. Há cargos vitalícios, é verdade. Mas a vitaliciedade se encerra com o termo previsto em lei. Assim acontece com as funções relevantes da República. Os políticos sabem melhor do que os outros que assumem o cargo e já começam a preparar a reeleição. Ela lhes dá sobrevida. Nutrem-se disso: a contínua luta pelo poder.

Uma característica muito própria à humanidade é a ingratidão. Na hora de pedir, há subserviência, humildade, doçura e polidez. Obtido o favor, esquece-se de imediato quem o prestou. Águas passadas. Página virada. Principalmente quando não existe a mais remota possibilidade de se necessitar de préstimo idêntico.

Quantas estórias a humanidade não coleciona de episódios amargos vivenciados por pessoas que só fizeram o bem ao semelhante?

Todos temos exemplos desse testemunho de que a espécie humana é feita de um material bastante frágil e de escassa confiabilidade.

Hoje contemplo a vida do Barão Geraldo de Resende. Considerado o maior propagandista da cultura cafeeira e da excelência das terras, o proprietário da célebre Fazenda Santa Genebra.

Segundo relatos fidedignos, era um fidalgo autêntico, não só no título, mas na polidez, nas suas maneiras, no seu berço. Seu pai, genro do Brigadeiro Luís Antonio, era homem de fortuna e fruía da intimidade e da confiança de Dom Pedro II.

O filho Barão formou Santa Genebra e converteu-a num modelo de fazenda de café, a propriedade agrícola mais visitada, mais admirada e mais elogiada por todos os visitantes ilustres - do Brasil e do exterior - que ali eram recebidos.

O Presidente Campos Salles costumeiramente mandava estrangeiros à Santa Genebra, dizendo “O Barão Geraldo de Resende é o meu pára-raios para estes apertos. Ele embasbaca os visitantes com a fazenda e encanta com o trato fidalgo que sabe dispensar-lhes”.

Tudo isso custava dinheiro. E era às expensas do Barão que os interesses comerciais da República iam sendo atendidos.

Só que a crise do café o golpeou de morte. Embora diversificasse a produção, o forte era a cultura cafeeira. Perdeu a esposa e nunca mais se mostrou o homem corajoso, destemido e pronto ao enfrentamento de novas borrascas.

Morreu em outubro de 1908 e, com isso, a derrocada do modelar centro de pesquisas e cultura agrícola. Pensou-se em converter a Fazenda Santa Genebra em Escola Agrícola, pois sua estrutura comportaria essa destinação. Afinal, foram mais de quarenta anos de contínuo investimento.

Mas a fazenda, em execução hipotecária, foi vendida em hasta pública. Diz Pelágio Lobo: “Desmantelou-se, num executivo hipotecário, não apenas o projetado ‘Núcleo Colonial Barão de Resende’, mas um centro de cultura dos mais perfeitos, cultura da terra, do campo e do espírito”.

Quando a filha do Barão Geraldo, D.Amélia, terminou a biografia que redigiu de seu pai, emprestou do Padre Antonio Vieira uma candente expressão, muito aplicável ao genitor: “Se servistes vossa Pátria e ela vos foi ingrata — fizestes o que devíeis, e ela o que costuma...”.