Publicado 06 de Fevereiro de 2020 - 5h30

O que um homem pode fazer com as dores de suas esperanças mortas? Não sei. Já enterrei tantas dores que nem sequer lembro onde. E tudo o que tenho em mim são as lembranças de velhas esperanças mortas e de tantas outras que nasceram depois.

Alberto era o nome de um amigo de escola, filho adotado por um padeiro do Cambuí. A gente não tinha mais que oito anos e em alguns dias seu pai, homem quase sempre empoeirado de farinha, dava uma carona para alguns meninos, os amigos de seu filho adotado. A escola era o João Lourenço Rodrigues, onde a gente entrava com sapatos e voltava para casa com os pés no chão. Eram tempos que os pés pediam liberdade, acho eu.

Certo dia, coisa de mais de 47 anos atrás, por volta do meio dia, o pai adotivo do Alberto chamou a molecada para uma carona até aos beirais da valeta da Orozimbo Maia. Alguns foram; eu não fui porque estava interessado em pegar umas pitangas que uma senhora cultivava em seu jardim, na rua Coronel Quirino. Foi um ato egoísta, eu sei, mas pitanga é coisa que ninguém reparte com ninguém.

Fruta na boca e nos bolsos pequenos da calça, sapato dependurado na cinta, quando cheguei à Igreja Nossa Senhoras das Dores, onde recentemente havia feito a minha primeira comunhão, vi uma grande movimentação. Na esquina, batido num poste estava o pequeno furgão do pai do Alberto, capotado. E o meu amigo estava com a cabeça estourada, prensada que foi no meio fio da calçada. E vi o padre Mariano, o mesmo que me deu a primeira hóstia, dar uma outra, a última, para o meu amigo Alberto.

Por anos passei por aquela esquina e sempre achei que eu devia pegar aquela carona. Talvez, eu sempre penso, que poderia segurar o meu amigo e salvá-lo do acidente.

A esquina, o meio fio, o poste e a igreja ainda estão lá. E lá ficou também um pouco da minha memória e de uma esperança, talvez a primeira, que morreu. Vieram outras esperanças e outras mortes; e morrer é como perder um maranhão que resolve ir embora quando a linha se rompe, ou por sua intenção, ou por intenção dos músculos do vento. Mas é sempre uma perda quando alguém se vai; e partir é direito de todos nós.

Tenho crença na saga de Cristo e compreendo as suas chagas. E sei o sabor que tem o fel da vida. E também o mel das palavras, das boas palavras de poetas, cantadores e bardos comuns dos bares. E nada disso tem a ver com esperança de uma vida melhor depois da morte. A minha vida eu tenho e quero agora, mesmo que todos os dias eu tenha que ser crucificado. A dor, aprendi, é coisa que se aprende vivendo. E é por isso que eu tento afinar a minha viola, ao tento das cordas, ao prazer da pele da mulher amada. E são os meus dedos que me dizem que as coisas belas e o amor são coisas muito doloridas. Então que seja assim a oração que devo rezar, ao amém dos finais das minhas esperanças, mas sempre à sombra de uma alameda de alecrins.

A morte assusta muita gente. E o novo coronavírus é o novo medo. Não me assusta. O que dá medo mesmo é o assassinato de quase 60 mil pessoas no Brasil. E o grupo mais atingindo por mortes violentas são jovens entre os 15 e 29 anos de idade: cerca de 60%. Na maioria dos casos, por envolvimento com a droga, que mata muito mais do que a tuberculose, que responde por apenas 3.600 óbitos, em média, no Brasil. E a tuberculose é a principal causa da letalidade entre os portadores de HIV. E ninguém sai por aí comprando máscaras para evitar o contágio.

E ninguém também se preocupa com os cerca de 130 mil mortos em acidentes de carro, por ano, nas estradas e ruas brasileiras. E o coronavírus é apenas mais uma doença que a humanidade tem de enfrentar, assim como aconteceu com a peste bubônica, a zika, a febre amarela, as gripes suína e aviária, a sífilis e a gonorreia. Mas contra o bolsonavírus, bem, aí teremos que aguardar as próximas eleições. A urna, bem sei, é um santo remédio.

Bom dia.