Publicado 07 de Fevereiro de 2020 - 1h00

Por Carlo Carcani Filho

A entrevista que o técnico do Guarani, Thiago Carpini, concedeu ontem deveria ser vista e revista por todos jovens que integram o departamento amador de algum clube. Carpini não revelou nenhum segredo do sucesso. Abordou questões óbvias, mas que cada vez mais se distanciam da realidade dos garotos.

É raro ver um treinador falar tantas verdades e com palavras tão duras. Normalmente essa análise é feita por comentaristas, ex-atletas e ex-treinadores. Carpini disse tudo isso no comando de um time, ao ser questionado sobre o retorno de um garoto do elenco para o departamento amador.

O treinador não se referiu a nenhum atleta de forma específica. Falou de um comportamento inadequado e, infelizmente, dominante na base do futebol brasileiro.

“O jogador da base tem que sonhar em jogar no Guarani. Quando o profissional está jogando, ele tem que estar na arquibancada e não na mesa de sinuca e no WiFi. Eu sou um pouco das antigas, quando o atleta da base esperava o profissional subir no ônibus para ver que lugar ia sobrar. Hoje ele está com o fone sem fio e pé em cima do banco. Há uma inversão de valores e não é só no Guarani. Temos que tomar cuidado para não prostituir a base", analisou Carpini.

Não tenho nada contra fones de ouvido, chuteiras coloridas e diversões eletrônicas. Tudo isso faz parte da rotina de uma nova geração e é mais do que natural que se divirtam com isso. Não há problema em se divertir. É necessário, até.

O problema se concentra na inversão de valores. A dedicação aos treinos tem que ser intensa. É preciso desejar a oportunidade no profissional. Não é compreensível que um garoto da base deixe de ver um jogo para fazer qualquer outra coisa.

Ver o time principal em campo, aprender com os melhores jogadores e detectar eventuais falhas dos que não são tão bons assim são obrigações de qualquer amador.

E ninguém precisa mandar um garoto fazer isso. Nem todos que sonham com a chance de vestir a camisa do clube e sentem prazer com a atmosfera de um jogo vão alcançar sucessso o futebol profissional. Mas é muito difícil que aqueles que não se interessem por isso cheguem lá. Indiferença e glória não combinam. O futebol é muito competitivo e não tem espaço para quem prefere a diversão ao trabalho

Carpini também citou jovens que possuem um staff completo a seu redor. É muita distração e ostentação para quem — na maioria dos casos — ainda não mostrou o mínimo necessário para ser integrado ao profissional. O alerta de Carpini deve ser ouvido por jogadores, técnicos e dirigentes das categorias de base.

Escrito por:

Carlo Carcani Filho