Publicado 07 de Fevereiro de 2020 - 10h18

Por AFP

Os manifestantes iraquianos estão divididos entre aqueles que desejam dar uma chance ao primeiro-ministro designado, Mohammed Allawi, como reivindicado pelo líder xiita Moqtada al-Sadr, e aqueles que se opõem a ele, fraturando uma revolta que já dura mais de quatro meses.

Nesta segunda-feira (3), os dois campos se encaram nas praças de Bagdá e do sul do Iraque. De um lado, estão os sadristas que respondem ao chamado de seu líder influente e, do outro, manifestantes hostis ao poder, principalmente jovens, que rejeitam qualquer político que, direta ou indiretamente, tenha servido ao sistema.

No sábado, dezenas de sadristas invadiram o "restaurante turco", um enorme edifício com vista para a icônica Praça Tahrir em Bagdá, uma verdadeira "torre de controle da revolução" ocupada há meses pelos manifestantes.

Eles expulsaram os jovens que ocupavam o local desde outubro e removeram todas as faixas, listando as demandas e criticando os políticos.

Domingo à noite, temendo a violência, os manifestantes que rejeitam a designação de Allawi reforçaram sua presença na Praça Tahrir, segundo militantes.

Eles agruparam as barracas mais afastadas do epicentro da contestação, marcada por mais de 480 mortos, quase todos manifestantes.

O movimento "está dividido, e há muita gente de ambos os lados. Tenho medo de um confronto", disse à AFP um manifestante em Tahrir.

Allawi foi nomeado no sábado pelo presidente Barham Saleh, dois meses após a renúncia de Adel Abdel Mahdi, forçado à saída pelo grande aiatolá Ali Sistani, figura tutelar da política no país.

Sua nomeação é rejeitada pelos manifestantes que querem a queda de todo sistema político e consideram esse político de 65 anos "muito próximo da elite dominante".

Versátil como sempre, Moqtada al-Sadr o apoiou, fraturando a revolta popular iniciada no início de outubro. Logo depois, porém, pediu a seus seguidores que permaneçam nas ruas, aumentando a tensão.

E, nesta segunda-feira, seus partidários estavam mobilizados perto de escolas e repartições públicas em Kut e em Al-Hilla (sul) para garantir a reabertura desses locais, após semanas de fechamento imposto por um movimento de desobediência civil.

Em Nassiriya, onde a desobediência civil foi uma das mais fortes, uma figura da contestação, Alaa al-Rikaby, propôs cortar a grama sob os pés dos sadristas.

"Vamos tomar a iniciativa, reabriremos escolas e administrações amanhã para não deixar essa oportunidade para mais ninguém", disse em um vídeo postado no Twitter.

Ele acrescentou que Allawi "não é a escolha do povo".

Em Basra, a grande cidade do sul, os estudantes deslocaram suas barracas, afastando-as das ocupadas pelos sadristas, observou um jornalista da AFP.

Allawi, que foi ministro das Telecomunicações de 2006 a 2007 e depois de 2010 a 2012, tem pouco menos de um mês para formar seu governo, que precisará obter a confiança do Parlamento.

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