Publicado 07 de Fevereiro de 2020 - 8h14

Por Estadão Conteúdo

Começou na quinta, 6 - e vai até a próxima quarta, 12 -, no Cinesesc, a versão compacta do Festival do Rio do ano passado. A diretora artística do evento, Ilda Santiago, e o gerente da sala da Rua Augusta, Gilson Packer, não apenas selecionaram uma programação de alta qualidade como privilegiaram títulos inéditos em São Paulo. No total de 21 filmes, destacam-se verdadeiras pérolas - os novos filmes de Alain Cavalier, Abel Ferrara, Ken Loach e Sergei Loznitsa são apenas alguns deles. Não faltam as atrações brasileiras, incluindo Favela É Moda, de Emílio Domingos, que venceu o Redentor de melhor longa documentário pelo voto do público.

Quem acompanha a trajetória de Alain Cavalier não cessa de se surpreender com o autor que surgiu na época da nouvelle vague sem se identificar com o movimento. Os primeiros filmes, Paixões e Duelo e Terei o Direito de Matar? abordavam temas políticos raros na produção da época, como a crise da Argélia e a polarização entre esquerda e direita em relação à colônia africana. Na sequência, Cavalier pareceu perder o rumo na produção mais comercial, antes de iniciar, com Thérèse, de 1980, uma nova fase exigente.

Nos últimos anos ele tem sido um solitário investigador da linguagem, fazendo filmes que os críticos chamam de ‘experimentais’. Vivendo e Sabendo Que se Está Vivo é um exemplo perfeito disso. Cavalier e sua amiga, a escritora Emmanuèle Bernheim, planejam um filme sobre o livro autobiográfico dela, Tout C’Est Bien Passé, em que a autora, como seu pai, pediu ajuda para morrer, após sofrer um ataque cardíaco. Tudo pronto, e a própria Emmanuèle foi parar no hospital, para uma cirurgia de emergência. A partir daí, o filme e a vida de ambos tomam rumos inesperados. Ainda mais ousado - e radical - talvez seja o documentário Funeral de Estado/State Funeral, de Sergei Loznitsa, em que, por mais de duas horas, e se utilizando de material de arquivo, o talvez maior cineasta russo contemporâneo realiza um prodigioso trabalho de montagem sobre a pompa e circunstância do funeral de Josef Stalin, em 1953.

Considerado o pai da URSS, Stalin governou com mão de ferro e o Estado transformou sua morte e enterro num espetáculo, durante o qual, e por vários dias, o corpo ficou exposto para o que o jornal Pravda chamou de ‘grande despedida’. Sem narração, Loznitsa faz uma impressionante reavaliação do que estava em jogo na URSS, naquele momento. Era todo um mundo que começaria a mudar, primeiro com o degelo, mais tarde a glasnost e, finalmente, o colapso do império soviético, a partir da queda do Muro de Berlim, em 1989. A seleção contempla documentários e ficções.

Em The Capote Tapes, Ebs Burnough mostra como o que deveria ser a obra mais ambiciosa do autor - sua obra-prima? -, Orações Respondidas, sobre a alta sociedade de Nova York, na verdade provocou sua derrocada. Sarah Jessica Parker, de Sex and the City, empresta sua voz a reflexões íntimas, sobre arte e vida, em O Que Ela Disse. Pode não ser um grande documentário, mas fornece um retrato acurado da mais importante crítica de cinema dos EUA, Pauline Kael, com depoimentos de Camille Paglia, Francis Ford Coppola e Quentin Tarantino.

Toni Morrison - As Muitas Que Eu Sou, de Timothy Greenfield-Sanders; Nômade - Seguindo os Passos de Bruce Chastain, de Werner Herzog; Diego Maradona, de Alex Kapadia, todos iluminam figuras importantes na cultura do século 20. E ainda tem o novo Ken Loach, Você Não Estava Aqui; o novo Abel Ferrara, Tommaso, em que Willem Dafoe merece (mais) os elogios que recebeu por O Farol. Favela É Moda traz um outro olhar sobre a periferia, ao mostrar o cotidiano de estilistas e modelos que criaram o conceito de Moda Resistência, a partir de agência localizada em Jacarezinho, na zona norte do Rio. Contundente, Fotografando a Máfia, de Kim Longinotto, mostra a luta da fotojornalista siciliana Letizia Bataglia contra a organização criminosa. Trata-se de uma belíssima seleção.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Escrito por:

Estadão Conteúdo