Publicado 20 de Janeiro de 2020 - 5h30

A relação de Jesuíta Barbosa com a tevê começou na contramão do tradicional. Geralmente, uma legião de atores novatos se submete a incansáveis testes para conseguir um papel no vídeo. De origem teatral e descoberto pelo cinema, a primeira experiência de Jesuíta na tevê já foi a partir de um convite. Criterioso e com autonomia, o ator embarcou em projetos especiais e de menor duração como Amores Roubados, Justiça e a recente Onde Nascem os Fortes. Mesmo satisfeito com seus desempenhos, ele sentia que sempre faltava alguma coisa. A resposta veio com um convite para viver um dos papéis principais de Verão 90, próxima novela das sete da Globo, com estreia prevista para 29 de janeiro. “Já tinha recebido outros chamados para novelas. Mas não cabia na minha agenda. Fiz duas tramas das onze, mas são menores e com pegada de minissérie. Estou acostumado a ter tempo para racionalizar demais os personagens e chegar na cena com tudo definido. Estar em um folhetim tradicional parte do meu desejo de encontrar outro método de trabalho, onde eu preciso ter jogo de cintura para lidar com o imponderável”, justifica.

Na trama que inaugura a parceria entre as autoras Paula Amaral e Izabel de Oliveira, Jesuíta dará vida ao ambicioso Jerônimo. No prólogo da história, ambientado em meados dos anos 1980, Jerônimo e seu irmão João, de Rafael Vitti, fazem parte do grupo infantil Patotinha Mágica, liderado pela estrela mirim Manuzita, de Isabelle Drummond. Por conta da sintonia entre João e Manu, Jerônimo sente que está sempre sendo deixado de lado pelo público e até por sua mãe, a batalhadora Janaína, de Dira Paes. “Meu personagem tem uma carência afetiva muito grande. Com isso, acaba invejando tudo o que acha que só o irmão tem. Ele vai nutrindo esse rancor ao longo dos anos e uma hora mostra sua verdadeira face”, adianta. Uma década depois do fim do trio, em pleno anos 1990, os integrantes voltam a se encontrar para um acerto de contas. É quando Jerônimo surge como o grande antagonista da história. “Vilão de novela das sete tem outro clima. Estou me divertindo muito ao ter de mostrar uma porção mais cômica da minha atuação. Conviver com Jorge Fernando é um grande aprendizado. Cresci vendo as novelas dirigidas por ele e me sinto muito seguro de que não existe diretor mais indicado para homenagear essa época."

Nascido em 1991, Jesuíta foi criança por toda a década. É claro que se lembra de muitos fatos, modas e comportamentos do período, mas precisou de uma ajudinha especializada para viver Jerônimo. No workshop promovido pela Globo, reviveu gírias, músicas, figurinos e objetos que marcaram época. “A novela vai retratar os anos 1990 antes da popularização dos celulares e da internet. É um tempo onde as coisas aconteciam de forma mais artesanal. Hoje, é tudo muito imediatista.”

Entre as principais lembranças musicais do ator, está a escalada de sucesso de bandas baianas, em especial, o É o Tchan. “Sou nordestino e lembro das músicas tocando a todo momento na rádio”, relembra Jesuíta, que pediu às autoras para utilizar em suas falas um dos principais bordões do grupo: “ordinária!”

Natural da pequena cidade de Salgueiro, no sertão pernambucano, Jesuíta se interessou cedo por teatro. Aos dez anos, mudou-se para Fortaleza (CE) e se matriculou em uma escola de atuação.Depois cursou Licenciatura em Teatro no Instituto Nacional do Ceará e passou a integrar coletivos como As Travestidas e o Centro de Experimentações em Movimentos. “Sempre gostei desse lado mais alternativo do teatro. E foi isso que me fez entrar no universo do cinema”, diz o ator que trabalhou com cineastas renomados, como Heitor Dalia em Serra Pelada e Hilton Lacerda em Tatuagem. “Entre 2012 e 2014, fiz seis filmes. Isso despertou a curiosidade de alguns profissionais de tevê e fui acertando os trabalhos com os quais me identificava.” Aos 27 anos, Jesuíta anseia por mais diversidade na carreira. “Não quero ficar conhecido como um ator só de personagens ‘cabeça’”, diz. (Da TV Press)