Publicado 20 de Janeiro de 2020 - 5h30

Na minha última ida a São Paulo eu o encontrei na avenida São João. Naquela do nem sei por que, perguntei se ainda continuava morando num hotelzinho, em prédio bem antigo, dos que aceitam hóspedes e mensalistas, para os lados do largo do Arouche. Ao responder que não, percebi certa sombra passar pelas feições do meu amigo. Após alguma vacilação, ele murmurou:

- Na verdade, foi muito bom; enquanto durou...

- Dois anos, não é isso? E recordo que até o mês retrasado você ainda me garantiu que não havia nada melhor do que morar em hotel.

- Pois é... Mas sempre pinta um dia em que as coisas têm que mudar.

- Afinal – resolvo especular – por que você demorou tanto tempo para descobrir que o hotel não te servia?

- Bom – ele coça a cabeça – foi num sábado.

- Num sábado?

- Exatamente, foi num sábado que tudo começou. Ali entre oito e oito e meia.

- Da manhã?

- Não, da noite. Eu estava no meu quarto, posto em sossego, lendo um livro, quando escuto aquilo.

- Não me venha com histórias de fantasmas.

- Quem falou em fantasmas? O que escutei foi o rumor de algo na fechadura.

- Da porta?

- É, da porta. Alguém enfiava uma chave. Primeiro fiquei indeciso; depois, concluí o óbvio.

- Que óbvio?

- Imaginei que algum hóspede errara de quarto. Só que, nem acabei de pensar, a porta se abre e eu vi.

- Um fantasma? – Volto a arriscar.

- Não, meu, uma mulher lindíssima. Incrível. Uma deusa. Que, naturalmente, ao me ver, mostrou certo embaraço.

- E você, certamente, também embaraçado estava...

- Muito. A dona olha para a fechadura, olha pra mim; por fim, pede desculpas, já com o ambiente inundado pelo aroma de um maravilhoso perfume francês.

- Mas – junto as mãos – e a chave? Como é que ela estava com a gazua da tua porta?

- Pois é... Mas veja, a chave que ela usou não era da minha porta, mas da porta dela. Do aposento que ocupava, ao lado do meu.

- OK – tento ordenar a confusão mental que começava a se armar – se não era a chave da tua porta, como é que abriu?

- Abriu porque – só descobrimos isso depois – o hotel fica num prédio muito antigo, havia algumas fechaduras ainda da época da inauguração, e uma mesma chave podia abrir mais de uma porta.

- Muito bem – coço a ponta do nariz – mas você não vai querer me dizer que mudou só por causa deste, digamos assim, mínimo, até singelo incidente, né?

- Não, e estou vendo que você não prestou atenção num detalhe.

- Qual?

- Conforme te disse, a dona que surgiu à minha frente era uma verdadeira maravilha.

- Boa mesmo?

- Boa? Pelo amor de Deus, cara, era uma divindade. E daí, diante daquilo, eu joguei.

- Jogou? O que?

- Uma cascata, é claro. E combinamos um jantar para o dia seguinte.

- Tudo bem - eu já estava envolvido pelo suspense – e você não poderia ter sido mais objetivo?

- Objetivo como? Você nunca ouviu falar que o apressado come cru? Marcando encontro para o outro dia haveria tempo de eu planejar uma tática.

- Que tática?

- A óbvia: se a chave dela abria minha porta, a minha, é claro, abriria a dela. Como eu tinha uns troços pra cuidar na tarde seguinte, faria o teste no começo da noite.

- Santo Deus! Mas, afinal, por que você deixou o hotel?

- Bom, deixei porque, ao chegar da rua, no outro dia, fui direto ao quarto dela, e a porta de fato se abriu. Só que dei de cara com um homem.

- Marido?

- Não, outro hóspede. A beldade tinha ido embora.

- E você mudou só por isso?

- Absolutamente. Mudei porque, ao chegar no meu quarto, descobri que ela lá esteve e levou quatro notas de cem dólares, algumas outras no mesmo valor em reais, um binóculo, duas máquinas fotográficas digitais, um celular, um notebook, um relógio, um anel de formatura e um pacote de fumo pra cachimbo. Inglês...

- E como você sabe que foi ela?

- Porque ficou, no ar, um maravilhoso e irresistível aroma de perfume francês...