Publicado 19 de Janeiro de 2020 - 19h05

Como não era muito comum que aparecessem, certo halo de curiosidade sempre pairava em torno de alguns grupos de gringos que pintavam na cidadezinha de Salinópolis, litoral do Pará, naquele tempo. Assim foi que, em certa manhã do século passado, me chamou a atenção a tropa de criaturas muito louras, muito alvas, que vi passando sob as acácias floridas. Tanto os homens como as mulheres vestiam coloridas bermudas; e todos, literalmente todos, numa época bem pré-celulares, traziam máquinas fotográficas penduradas aos pescoços.

De tarde, desta vez na praça da Matriz, vi novamente a tropa. Nesta oportunidade fotografavam tudo, a igrejinha, as árvores floridas, e até um casal de cachorros que, grudados, faziam amor junto ao coreto.

Avistei os visitantes pela terceira vez no dia seguinte, numa espécie de feira que existe junto ao mercado daquilo que chamam de Porto Grande. Todos parados diante de uma banca de venda de peixes, não para comprar, sim fotografar. Um dos homens levantou, pelo rabo, uma enorme pescada-amarela, posou, e logo tive certeza que fazia aquilo para, depois, mostrar a imagem aos amigos afirmando que pescara o maravilhoso espécime.

Nesta altura dos acontecimentos não contive a curiosidade e me aproximei na tentativa de ouvir o que diziam. Só então descobri que não falavam inglês, como esperava, mas alemão. E de tal língua, santo Deus, tanto naquele tempo como hoje, eu entendo tanto quando o ex-presidente Lula entende um bom português.

Pois bem, a tropinha de gringos somava exatamente dez pessoas, a saber: um casal de jovens, outro de meia-idade, dois rapazes, três moças, e, finalmente, uma senhora entrada em anos; uns 70 e pucos, vamos dizer.

Meu próximo encontro com os, digamos assim, alienígenas, se deu na manhã seguinte, eu sob guarda-sol na praia da Atalaia, a derrubar uma cervejinha. Eles chegaram em dois táxis, envergando as costumeiras bermudas e camisas coloridas. Assim que começaram a se despir para exibir as roupas de banho que estavam por baixo, os corpos, de tão brancos, davam a impressão de que derreteriam a qualquer instante, sob o monumental sol dos trópicos. E no entorno, enquanto as nativas ostentavam minúsculos fios-dental, as alemãs envergavam maiôs inteiriços. Só a senhora de 70 e poucos ostentava um duas peças. Que exibia corpo combalido, é verdade. Mas não, ainda, em irremediáveis ruínas.

Na tarde deste mesmo dia na minha “happy hour” no barzinho do Ceará, na praia do Maçarico, eis que os alemães desabam. Imediatamente juntaram três mesas a um canto, fizeram sinais para o dono da biboca e, como eu precisei me afastar chamado por um amigo, não deu para perceber como conseguiram fazer seus pedidos. Aliás, diga-se, muito bem atendidos, pois, na volta, vi diante dos visitantes belos peixes, cervejas, e até sopas.

Agora, em tudo isso, a maior surpresa ainda estava por vir. E ocorreu tarde da noite, na hora reservada aos boêmios, no Garotão, um dançará que funcionava até o sol raiar. Peguei cantinho junto ao balcão e nem dera ainda o primeiro gole quando, quem vejo? Exatamente um dos rapazes alemães, com seus vistosos cabelos louros e camisa aberta ao peito, atracado a uma exuberante mulata. Exatamente daquelas que o lendário Stanislaw Ponte Preta classificaria como petisco para quatrocentos talheres. Por todos os meios e modos, como eles dançavam sem falar um com o outro, passei a imaginar em como estavam se entendendo. Mas como logo após a dança sumiram em direção aos escuros da praia, o mistério pairou no ar. Como tinha coisas a fazer em Belém, no dia seguinte fui para lá.

Só voltei um mês depois e, para ser franco, sequer lembrava dos visitantes alemães. Mas como as resoluções de certos mistérios parecem que perseguem as pessoas incomodados pelo fato de elas não se preocuparem em resolve-los, à tarde, ao entrar na padaria, quem vejo? Exatamente a linda mulata para quatrocentos talheres que, quatro semanas antes, eu vira a dançar com o gringo na gafieira. Como se uma luz se acendesse dentro de mim, fui a ela, que conhecia vagamente, para perguntar como conseguira se entender com o turista.

- Turista? Ele não era turista – respondeu.

- Como ele não era turista, se eu o vi, junto com um grupo de alemães, todas as vezes em que encontrei com eles?

- Ah – ela abriu o riso – aquele moço bonito era o Gaúcho, dono de um dos táxis que os gringos usavam; ele falava alemão por ser filho de um, de Porto Alegre. Servia de intérprete para os estrangeiros.

- Mas você se refere a ele no passado, “era”, “falava” alemão... Por que, ele acaso, morreu?

- Não, foi embora com os gringos. Uma das mulheres se apaixonou por ele e o levou.

- Puxa, que sorte! Uma daquelas lindas alemãzinhas?

- Não, uma das lindas alemãzinhas não, a alemãzona, a véia.

- Mas a véia? O que é isso? Você ficou louca?

- Eu não. Acontece apenas que a dona da grana e das grandes fábricas na Alemanha é ela!...