Publicado 07 de Dezembro de 2019 - 19h05

Uma das mais lembradas cenas de O Homem que Matou o Facínora, maravilhoso filme de John Ford, é aquela, logo no começo da película, na qual um repórter, ainda meio foca, vai entrevistar o senador Ranson Stoddard (James Stewart), que fora à pequena cidade de Shinbone, no Oeste americano, para assistir a um funeral. Quem estava sendo enterrado era Tom Doniphon (John Wayne) certo homem comum que, na opinião de muitos, não justificaria a presença de autoridade tão alta no seu sepultamento. Ao ouvir as razões da atitude do político, o jovem jornalista fica em dúvida se devia publicá-las ou não, pois conflitavam com o que todo mundo pensava ter ocorrido. É então que, muito sabiamente, o redator-chefe do jornalzinho diz ao rapaz: “Olha, quando a lenda é mais importante do que a realidade, devemos permanecer com a lenda”.

Tenho agora essa lembrança da esplêndida fita pois, ao chegar na remotíssima vila de Jurubebatêua, no litoral do Pará quase divisa com o Maranhão, de repente fui envolvido pela curiosa história de um personagem da região que acabaria por me remeter ao escurinho das salas de cinema. O cidadão era conhecido como João-Fala-Com-Onça, e a razão desse, digamos assim, apodo, é que ele teria não só capacidade para bater grandes papos com os felinos que habitavam na floresta por trás da dunas. Diziam que os grandes gatos também caçavam para ele. Atendendo às suas ordens, pegavam bichos como pacas, cutias e até veados; que, mortos pelas mandíbulas poderosas, eram levados para a alimentação do fulano. As onças também vigiavam a morada contra algum eventual predador, puxavam o rústico arado no preparo da terra da roça e também a carrocinha na qual João transportava coisas pra cá e pra lá.

Tudo teria começado quando o citado personagem, ao atravessar trecho da floresta em companhia de um cunhado, viu diante dos dois uma enorme onça pintada. Rápido, João indicou ao acompanhante a direção em que devia correr, enquanto tomou a oposta. Antes, porém, berrou ao felino: “Comigo não, viu?, comigo não!” O resultado do insólito diálogo foi que escapou. Enquanto a irmã ficou viúva, pois o gatão pegou o marido dela.

Desgostoso, João ganhou o apelido de Fala-Com-Onça, e se isolou num lugar ermo, de difícil acesso, onde passou a morar. Enquanto isso, a lenda em Jurubebatêua só cresceu. Mesmo que, lá, nunca mais ele tenha aparecido.

Estando então eu na localidade, com o espírito do repórter a se mexer dentro de mim, acabou sendo natural que quisesse conhecer o fulano que diziam ser íntimo de tão ferozes animais. Para chegar ao local em que o cara morava precisaria subir, de barco, por mais de três horas, um longo trecho de braço de mar. Não foi fácil achar quem me quisesse levar, pois todos tinham medo de ir à casa de João e cair nos dentes de alguma feroz pantera. Mas, graças a boas notinhas de dinheiro, consegui o guia. Que me conduziu numa simpática canoa. Movida a vela.

Chegando diante da casinha de João, encravada no alto de um barranco, o guia não quis descer, preferindo me esperar a bordo. Já então com certo medo, segui em frente para ser surpreendido, ao me aproximar da morada, pelo som de Frank Sinatra a cantar Strangers in the Night, em bom volume. Isso me animou e acabei recebido pelo próprio morador, que escutava uma estação de rádio de algum lugar distante através de aparelho movido a pilhas. O resultado do encontro foi que descobri um caboclo absolutamente comum, dono de pequena propriedade onde fabricava farinha, criava galinhas, patos, perus e plantava açaí e cupuaçu, que comercializava numa cidadezinha no vizinho Maranhão, para onde o acesso era mais fácil e ninguém sabia quem ele era. Na verdade, nem tive coragem de perguntar sobre onças.

Menos de uma hora depois voltava para o barquinho e a primeira coisa que o guia perguntou foi sobre os felinos. Respondi ter visto só três. E horas depois, já de volta à Jurubebatêua, alguns moradores do lugarejo, menor do que o mínimo, me cercaram no butequinho ao lado do Entreposto de Pesca. Nessas condições, tomado pela famosa frase do filme de John Ford que cito acima, encontrava-me preparado para as inquirições. Que vieram.

- E as onças? – Um indagou.

- São grandes? – Outro quis saber.

Calmo, primeiro dei um gole na cerveja mal gelada num refrigerador movido a gás, pois na área não existe luz elétrica.

- Bom – comecei – ao chegar logo avistei João, que estava num alpendre na frente da casa com uma parda, uma preta e uma pintada.

- Onças? – Todos indagaram.

- Sim, claro – respondi – batiam papo e tomavam cachaça com ele.

Diante dessa informação o pequeno grupo fica em silêncio. Por fim, um murmura:

- Mas como é que onça pode beber cachaça, se não tem dedos para pegar o copo?

- Ora – concluí – João ia dando, para cada uma delas, a boa pinga colocada dentro de uma mamadeira.

Até onde sei, a lenda segue. Cada vez mais forte. Acrescida do detalhe do uso do frasco que, normalmente, é utilizado para leite. O personagem de O Homem que Matou o Facínora tinha razão. Que permaneça a lenda...