Publicado 08 de Dezembro de 2019 - 5h30

Ninguém sabe a delícia do podre e a delícia que é um quitute de massa podre - tem gente que pensa o contrário. Penso diferente de uma gente que brinca com as emoções de um povo. Nunca fiz brincadeira nenhuma com os meus sonhos. E os canalhas políticos que se apodreçam em si. Tudo muito simples como um cinzeiro. Ninguém sabe da minha porfia, da minha lida com a vida com as coisas nas quais acredito. Sou só um contador de histórias e trovador, segundo as boas línguas de amigos.

Todo o santo dia eu acordo e fico lidando com os acertos e erros que andei fazendo pela dita vida dura. Nunca tive gosto de sonhar — ah! e como eu sonhei! Nunca tive gosto de sonhar quando durmo. Gosto mesmo é de pensar acordado, andando pelas calçadas, crescido que sou, desde que nasci, um bacuri caipira ao colo da minha mãe. E é disso que me lembro. E lembro do meu umbigo cortado pelo canivete afiado do meu avô, limpo e bem afiado pelo fumo goiano, dos médios - e que hoje anda comigo, única herança dele herdada.

Adolfo Guilherme, meu avô, inventava muita história — talvez por isso virei também contador, escrivão e espião da cidade, ofício que não pedi e não desejei. E se tivesse que sonhar gostaria que ele — o meu avô — soubesse que aprendi a tirar umas notas na viola caipira, essa coisa de uma gente sem eira nem beira, como ainda falam por aí....Nunca ouvi meu avô cantar. É uma triste sina. Ele era só um contador de histórias. E foi um dos melhores que já ouvi. E tanta história ainda guardo aterrada no meu peito. Mas o avô se foi e eu tive que lhe compor à elegância da morte. Fuad Buainain, meu primeiro patrão, me ensinou como se vestia um homem defunto e bom. E ficamos olhando o corpo daquele velho que deu a minha existência, sem dor, apenas pensando em quem nos vestiria, com elegância, na nossa partida. E foi assim, o ex-patrão e eu que espiamos os nossos destinos.

Meu pai tocava violão. E eu ficava espiando o jeito dos dedos dele tocando as cordas. Eu não tinha nem doze anos. Foi a minha tenência, conversa do meu avô. Cumpridor de seus deveres (sempre levava a minha mãe para dançar), meu pai assim determinou que o seu filho não seria tocador, músico ou qualquer coisa que se assemelhasse. E ele estava certo e bem errado. Aprendi um jeito de fazer carinho nas cordas do violão e agora tento entender como as veias da viola se gostam, cebolão, rio abaixo, rio acima, paulistinha e tantas outras afinações que a vida vai nos ensinando.

Nunca tive gosto de sonhar quando durmo. Gosto mesmo, como já disse, é de sonhar acordado, andando pelas calçadas ou dentro de um lotação. Sonhar assim é bom porque põe os olhos da gente para dentro. Tem gente que não gosta disso porque vai ver muita sujeira. Eu também tenho a minha, mas a sujeira da política é bem pior.

Se olhar para dentro não é coisa de gente que gosta de ficar olhando o seu próprio umbigo. Demanda muita coragem enxergar nossos defeitos morais. E quem não os têm?

Nunca ouvi meu avô cantar. E isso me deixa ainda triste às vezes. Ele era só um contador de histórias, como já disse. E também não meu viu tocando os sinos da Igreja das Dores e muito menos a campainha lá de casa, que eu não era besta de acordar o meu pai no meio da madrugada — preferia bater de leve na janela do quarto e acordar o meu mano caçula — que hoje dorme em sono eterno e sem janela...

Levei essa prosa de prosinha, raro leitor, porque hoje é dia da Santa Padroeira Imaculada da Conceição e, portanto, um dia muito bom pra gente ficar bestando na rede e capinar conversa mole em cadeira de calçada ou em porta de botequim. E pedir alguma graça também pode. E se vier com um pedaço de bolo de abacaxi fica ainda melhor. É isso.

Bom dia..