Publicado 06 de Dezembro de 2019 - 5h30

Há motivos para estar insatisfeito com o presente. Principalmente quem vive no Brasil. Continuamos campeões em violência. Mais de 70 mil mortes de jovens por ano. Fora os 40 mil mortos no trânsito. E várias dezenas de milhares incapacitados porque se envolvem nos acidentes causados pelo mais egoísta dos meios de transporte: o carro. Não é só. Facções criminosas dominam espaços nos quais o Estado não entra. Em outros setores, vivem numa incestuosa promiscuidade e não há a menor perspectiva de retorno a uma situação em que a licitude era a regra e o ilícito a minoria.

Comemora-se a redução do número de desempregados, dos quais restam “apenas” quase 13 milhões. Da mesma forma que se celebrava a redução do desmatamento, antes do incêndio que destrói a Amazônia, o Cerrado e até o Pantanal. Aquilo que se chamava “a velha política” adquiriu força e ganhou fôlego. Em lugar de extinguir o famigerado Fundo Partidário, ele é acrescido. Numa nação em que há 265 milhões de mobiles, não se pensa em fazer eleição por celular, cada qual votando de onde quiser, sem a paralisação da República e a dispendiosa logística do dia das eleições. Convocam-se milhares de pessoas para trabalhar de graça. Requisitam-se prédios que interrompem suas atividades escolares. Afinal, já somos o povo mais educado do mundo. Não prejudica parar alguns dias para as eleições. O anacronismo de quem não está no seu município ter de recorrer aos correios para “justificar” a ausência, quando poderia usar o seu celular para exprimir sua opinião. Celular com o qual faz transferências bancárias, embarca para voos internacionais e se comunica com o mundo inteiro, com imagem e som, instantaneamente.

É um país atrasado nesse aspecto. Por isso é que a juventude precisa assumir as rédeas. O pensamento velho já não convence ninguém. Faz mais do mesmo e faz mal. Muito mal. Já prejudicou o futuro de gerações. Os “millenials” têm condições de “virar o jogo”. Invistam em soluções para problemas que parecem insolúveis. Aproveitem a ideia da Cúpula de Desenvolvimento Sustentável do Fórum Econômico Mundial e sigam o exemplo de 40 jovens que foram reconhecidos como empreendedores sociais. Roberta Faria, com 38 anos e Rodrigo Pipponzi, com 39, fundaram a Editora Mol. Ela cria projetos editoriais de impacto social e parte da renda é revertida para causas nobres. Já distribuíram 31 milhões para várias organizações brasileiras. O empreendedor social é aquele que não se conforma com a situação nacional, indigna-se, mas age. Não é suficiente protestar. Nem sair às ruas para manifestações que às vezes derivam no vandalismo e na violência. A inovação social é um novo desafio, cujos protagonistas formam um ecossistema de atores pioneiros. Assim é que o momento é o de criação de startups, influencers, pessoas que possam por cobro à insanidade de quem não enxerga a tragédia do aquecimento global e estimule a destruição do verde.

O Brasil nunca mais recuperará o tempo perdido, aquelas décadas que sucatearam sua indústria. A receita agora é explorar turismo. Há coisas lindas a serem vistas. Mas para isso, é preciso mostrar que esta é uma nação segura. Segurança pública é obrigação de todos, não apenas do governo. É preciso estar vigilante, denunciar, coibir práticas abusivas, exigir uma conduta responsável por parte do Estado. Cada notícia de turista assassinado em nossa Pátria afugenta os bilhões de estrangeiros que se destinam a outros lugares, inferiores em atrações, mas considerados os mais seguros do planeta. Criatividade, engenhosidade, empreendedorismo, levar a sério aquilo que até hoje pareceu apenas um hobby: gastronomia, a arte de bem receber, serviços de garçom, de guia turístico, artesão, compositor, tocador de violão, de berimbau, de cuíca, seja lá o que for. É na ginga, no estilo cult, na simpatia, que o brasileiro pode ganhar o mundo. Agora, se tiver um empreendedor social que o ajude, o sucesso será inevitável consequência. Você está insatisfeito com o Brasil? Então mude a sociedade. Você pode. Se quiser, de verdade, chegará lá.