Publicado 05 de Dezembro de 2019 - 5h30

Já tive muitos dezembros pelos canteiros da vida. A maioria ficou esquecida em algum canto do jardim, perdida por entre as folhas dos morangos que a minha mãe plantava sob as roseiras. E assim devo deixar; velhos dezembros são abelhas que apenas desejam querer viver em paz. E por não ser mais o moleque dos velhos tempos taquarenses, não vou atirar pedras em antigas lembranças quase esquecidas. Mas houve um dezembro manso em minha vida, coisa de sessenta e cinco atrás. Luiz Peçanha, meu padrinho, passou em casa e deixou um presente de Natal: uma bola de capotão, oficial, número cinco, marrom, é claro, de retângulos com pontas abauladas - caprichosamente costurados a mão. E aquela bola rolou pelo campinho e eu sem saber ainda que ela estava a me dizer o quanto deveria rolar pelos caminhos da vida.

Foram tardes mágicas que passamos, a bola, os amigos e eu. Na esquina da Rua Paula Bueno com a José Villagelin Neto, em frente ao Armazém do Seu Furian, tinha um açougue, onde eu ia buscar sebo para passar na pele do capotão. A bola ora dormia na casa do Pão Com Môio, ou debaixo da varanda do Tuca, ou também protegida sob a minha pequena cama patente. Certa feita, minha mãe queria que eu a acompanhasse até ao salão de beleza, quase perto da Igreja Nossa Senhora das Dores — uma caminhada de um quilômetro pela subida da rua Coronel Quirino. Eu relutei e dei um chute na parede do quintal. Era um daqueles dias de sol ardido. E vestir uma calça piniquenta de casemira, sem cueca, e botar sapato não estava nos meus planos. Fiquei de castigo e, tão logo a minha mãe saiu, o Tuca, meu melhor amigo, e o primeiro da nossa turma a partir da vida, gritou meu nome à sombra do pessegueiro que nascia sob a minha janela. Peguei a bola e a joguei por sobre o muro, dizendo que eu estava de castigo. Ele jogou a bola de volta e disse que ia ficar comigo, e começamos a passar o tempo jogando futebol de botão no ladrilho frio do alpendre. E assim ficamos até que um outro amigo apareceu perguntando se a gente não ia jogar a dita pelada da tarde. Tuca respondeu que eu estava de castigo e dali a pouco todos os amigos estavam em casa, onde armamos um campeonato. Foi um dos melhores castigos da minha vida.

Foram muitos os dezembros e toda a vez que um deles põe a cara na rua, penduro os olhos das minhas lembranças por sobre o portão da vida, aguardando a chegada do padrinho com uma bola de capotão. E assim será mais um dezembro, farto de amigos e solidariedade, todos ainda presentes nas minhas lembranças. Chato mesmo é passar pela velha esquina da Rua Paula Bueno e não ver mais o açougue aberto, o não poder mais comprar um pedaço de sebo para amaciar o couro surrado das lembranças. E mais um ano vai se esgarçando... Vou juntando os cacos e seguindo em frente. Alguns leitores me censuram na padaria dizendo que ando escrevendo muito sobre velhas lembranças e nada a respeito da vida política do país. Digo que o governo Bolsonaro é de uma mesmice idiota e que, mais dia ou menos dia, ele se engasgará na própria língua. Política e metaforicamente falando, é claro.

O secretário de Comunicação Social da Presidência, Fábio Wajngarten, escreveu um artigo na Folha de São Paulo (2/12/19) e desceu o sarrafo no jornal que abrigou os seus argumentos pelegos. Língua subordinada à boca presidencial, falou o que o seu chefe queria e a vida segue. E sigo eu os meus prosaicos caminhos, minhas sinceras calçadas e atravessando as esquinas e as praças democráticas das minhas convicções. Jair Bolsonaro caiu fora do PSL, cuspindo no prato que comeu, e quer agora fundar um partido para chamar de seu: o Aliança Pelo Brasil. Aliança, segundo o entendimento etimológico e político quer dizer parceria com o lado contrário. Mas como bem sabe o raro leitor, o principal e trágico defeito do presidente Bolsonaro é não respeitar os fundamentos basilares da democracia — os mesmos, aliás, que garantiram a sua eleição para presidente da república, e que, pelo pretérito de suas afirmações, poderão ser, também, em um futuro próximo, umidificados pelo seu costumeiro cuspe raivoso.

Outro dezembro e aguardo que no próximo o presidente Bolsonaro não envergonhe ainda mais o cargo que ele ocupa. E que ele pare de lamber as mãos gordas do presidente Trump. É isso.

Bom dia.