Publicado 08 de Dezembro de 2019 - 11h54

Por Francisco Lima Neto

Darcy de Pádua, na sede da Apae, no Parque Itália, em Campinas:

Leandro Ferreira/AAN

Darcy de Pádua, na sede da Apae, no Parque Itália, em Campinas: "O interesse primeiro era preparar as crianças e inseri-las na sociedade e, a longo prazo, prepará-los para o mercado de trabalho"

Total lucidez, nomes e datas na ponta da língua. Contudo, o que mais chama atenção ao ouvir Darcy Paz de Pádua, de 97 anos, é notar o entusiasmo com que ele fala sobre os atendidos pela Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) — entidade à qual ele dedicou 54 anos de sua vida — e que faz as lágrimas rolarem pelo seu rosto ao constatar que todos os esforços valeram a pena. Em janeiro, ele entrega o cargo de presidente do Conselho de Administração, órgão máximo da entidade, com o sentimento de dever cumprido.

Pádua desde cedo se interessou pelos menos favorecidos e sempre esteve envolvido nessas causas. Tanto, que era membro do Lions Clube e se movimentava com alguns amigos, como o engenheiro agrônomo Flávio da Rosa Junqueira, a professora Sebastiana de Moraes e Ruy Rodrigues, que também teve a vida dedicada às crianças, para criar instituições que pudessem servir à comunidade.

Pádua, advogado de formação, é um dos criadores da Fundação Feac, que nasceu em 1964. Mal sabia que seu destino começava a ser escrito. No ano seguinte, após um período de articulação, surgia a Apae. A assembleia de inauguração ocorreu no auditório recém-construído no Instituto Agronômico. “Eu era o 1º vice-presidente da Feac e fui indicado para presidir essa assembleia”, conta com a voz embargada.

Desde aquele momento, ele se envolveu com a Apae e passou a acompanhar as reuniões da entidade. Inclusive, a Feac cedeu suas dependências para que a Apae pudesse montar seu setor administrativo. A histórias das duas instituições se confundem.

A 1ª escola da Apae funcionou em uma área cedida em frente à fábrica Chapéus Cury, no bairro Guanabara. "As dependências eram adaptadas, mas insuficientes para ser uma escola definitiva, mas foi o suficiente para iniciar os trabalhos", diz.

"Tinha o ortopedista Dr. Luis Calil Sader e a professora Sebastiana, que receberam os primeiros alunos. O psicólogo Saulo Monte Serrat selecionava os candidatos ao magistério na Apae e os primeiros funcionários. Esse foi o começo da Apae", relata.

A entidade queria fazer a diferença na sociedade e mudar o quadro, que naquela época poderia ser considerado um fardo para algumas famílias. "O interesse primeiro era preparar as crianças e inseri-las na sociedade, e, a longo prazo, prepará-los para o mercado de trabalho. A dificuldade das famílias primeiro era manter as crianças e depois a preocupação natural de como seria a vida dessas pessoas depois que o pai e a mãe morressem, sem preparo. A Apae visava enfrentar essas dificuldades", afirma.

Com alguns contratempos, a entidade conseguiu adquirir o terreno onde está instalada hoje, no Parque Itália. Para o projeto e a obra, contou com a boa vontade de Lix da Cunha e de sua esposa, Nair da Cunha. “Eu fiz o discurso no lançamento da pedra fundamental e disse que aquela pedra seria uma semente que iria dar os frutos para o desenvolvimento dessa atividade”, relembra, com a voz embargada e os olhos marejados.

A entidade cresceu e superou todas as dificuldades financeiras com bingos, jantares beneficentes e toda forma possível para manter as atividades. Foi criado um sistema de estimulação precoce para os bebês e de desenvolvimento para o trabalho para aqueles que estavam aptos.

Uma das primeiras empresas a contratar os atendidos foi a 3M. “Eles diziam que os alunos não causavam dificuldades. Levavam exemplo de dedicação e alegria. Assim, foi feita a inclusão, tornando a sociedade mais justa, igualitária e, principalmente, solidária”, reforça, ainda contendo a emoção.

Centenas de pessoas estão sendo preparados nas instalações da Apae e outras centenas estão no mercado de trabalho com carteira assinada. “Eles trabalham e levam esse recurso para casa. Alguns são arrimo de família”, conta com lágrimas nos olhos, vendo que toda uma vida de esforço valeu a pena.

Resultados e emoções certificam a missão cumprida

Para Darcy Paz de Pádua, é difícil controlar a emoção quando fala da Apae, que é a obra de sua vida. E a credibilidade para ele é muito importante. "Temos auditor externo e um departamento jurídico contratado. Eles são responsáveis pela condução e aprovação das contas. Por isso temos tranquilidade", afirma.

"Estou com 97 anos e não imaginei passar a vida aqui dentro. Eu tenho um defeito: não me preocupo com o futuro. Está tudo na mão de Deus. Deus nos criou, Deus nos conduz. Então ele é o responsável. Eu fiz a minha parte", explica emocionado.

Ele diz que o objetivo foi alcançado. "Quando vemos o sucesso desses moços, dessas meninas, preparados para o trabalho e a alegria dos pais, isso não tem preço", afirma.

Ele permanece no cargo até dia 2 de janeiro de 2020, quando empossa todos os novos eleitos. "Eu que tenho que transmitir a posse para todos eles, os dirigentes e componentes da Diretoria, Conselho de Administração e Conselho Fiscal", explica.

Apesar da emoção, ele afirma que está preparado para o momento. "Os novos, que são bem melhores que eu, vão assumir. Estou preparado, sempre preparado para assumir e para deixar. Nesses 54 anos tive dois ou três períodos de presidência, mas sempre estive presente. Vou continuar presente certamente, a não ser que não precisem. Espero que não precisem", finaliza com lucidez impressionante.

Escrito por:

Francisco Lima Neto