Publicado 06 de Dezembro de 2019 - 12h27

Por AFP

Da Síria à Otan, passando pelas guerras comerciais lançadas pelo Twitter, Donald Trump impôs ao mundo sua concepção muito pessoal de relações internacionais e, com a eleição de 2020 no horizonte, deve insistir nessa estratégia apoiada por sua base.

O magnata do setor imobiliário anunciou em 2019 o que talvez tenha sido sua vitória mais sólida na cena mundial até o momento: a morte do líder do grupo extremista Estado Islâmico (EI), Abu Bakr al-Bagdadi, em uma operação de seu governo na Síria.

Trump encerra assim um ano que esteve cheio de reviravoltas: de sua tentativa de pôr fim à guerra no Afeganistão à sua aposta diplomática para derrubar Nicolás Maduro na Venezuela, apoiando a proclamação de Juan Guaidó como presidente interino.

Em relação ao Afeganistão, o republicano surpreendeu, convidando os talibãs para negociações que foram declaradas mortas e que ele mesmo ressuscitou.

O mesmo não se pode dizer da Coreia do Norte. O republicano contava com fechar um histórico acordo com Pyongyang, mas uma cúpula muito esperada com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, ficou em suspenso. As conversas esfriaram, e as ameaças e lançamentos de foguetes norte-coreanos voltaram.

Ainda mais tumultuada foi sua agressiva estratégia comercial com a China. Foram frustradas até o momento as expectativas da comunidade internacional de que as duas maiores economias do mundo cheguem a um acordo e cessem a guerra tarifária.

Inusitadas críticas entre seus correligionários do Partido Republicano expuseram as mensagens contraditórias em relação à Turquia, depois que Trump ordenou a retirada das tropas americanas da Síria. A decisão abriu caminho para que Ancara atacasse os grupos curdos aliados de Washington, os quais combateram os extremistas.

Na sequência, Trump pressionou a Turquia, um aliado-chave da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), com sanções.

Para além dos pontos de conflito, Trump rompeu muitos padrões com seu estilo, alinhando-se com alguns dos líderes mais autocráticos do mundo e entrando em choque com aliados próximos. Foi o que aconteceu na cúpula da Otan, realizada recentemente em Londres.

Também rompeu o consenso, ao se retirar do Acordo de Paris sobre o Clima, assim com do pacto nuclear com o Irã, e ao adotar posturas muito favoráveis ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Em um reflexo de sua agenda nacional, na qual reduzir a imigração é uma prioridade, Trump se tornou o único líder a enfrentar o status quo.

Antes de viajar para a cúpula da Otan não se referiu apenas aos desafios em segurança representados por Rússia, Síria, ou Afeganistão. Ele também criticou os aliados "lentos" que não estão contribuindo o suficiente com o organismo.

"Não foi uma situação justa, porque nós pagamos demais", afirmou.

Sua campanha de 2020 começa marcada pelo processo de impeachment aberto contra ele na Câmara de Representantes, após as acusações dos democratas de que abusou de seu poder ao adiar a entrega de ajuda para a Ucrânia como forma de pressionar Kiev a investigar um de seus principais rivais, o ex-vice-presidente Joe Biden.

Brian Katulis, membro do Center for American Progress, classificou a política externa como o "tema latente" das futuras eleições, mas disse não estranhar que Trump encontre uma maneira de empurrá-la para debaixo do tapete.

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