Publicado 06 de Dezembro de 2019 - 11h57

Por AFP

A lembrança dos crimes nazistas é "inseparável" da identidade alemã - declarou a chanceler Angela Merkel, nesta sexta-feira (6), em sua primeira visita ao campo de extermínio de Auschwitz.

A visita coincide com a ascensão do antissemitismo e da extrema direita na Alemanha, assim como com o desaparecimento das últimas testemunhas dos horrores de Auschwitz, o que dificulta a transmissão da memória.

"Recordar os crimes, nomear seus autores e prestar uma homenagem digna às vítimas é uma responsabilidade que nunca pode parar. Não é negociável. E é inseparável do nosso país. Ser consciente desta responsabilidade faz parte da nossa identidade nacional", disse Merkel, a primeira chefe de Governo alemão a visitar o icônico campo do Holocausto desde 1995.

Com a voz embargada, ela insistiu na importância de dar a Auschwitz "seu nome completo".

Localizado na atual Polônia, o campo ficava em uma região "anexada em outubro de 1939 pelo Reich" e "administrada pelos alemães". "É importante nomear claramente os criminosos. Nós, alemães, devemos isso às vítimas e a nós mesmos", frisou.

Em seu discurso, Merkel alertou contra "a ascensão do racismo e a disseminação do ódio", além do antissemitismo que ameaça comunidades judaicas na Alemanha, na Europa e em todo mundo.

No início da manhã, Merkel atravessou o portão do campo de concentração, onde ainda há o sinistro slogan nazista: "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta").

A chanceler estava acompanhada do primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki; de Stanislaw Bartnikowski, um sobrevivente de Auschwitz de 87 anos; e de representantes da comunidade judaica.

Falando antes de Merkel, Bartnikowski deu um testemunho comovente. Deportado aos 12 anos com sua mãe, sentiu-se humilhado quando foi forçado a se despir em meio a uma multidão de mulheres, também nuas.

Ele lembra que perguntou aos prisioneiros quando seriam libertados. E recebeu a resposta dos kapos, os prisioneiros promovidos a guardas auxiliares: "há uma única saída para a liberdade, a que passa pelas chaminés" dos crematórios.

O primeiro-ministro polonês ressaltou, por sua vez, que as testemunhas dos crimes cometidos em Auschwitz estão desaparecendo.

"Somos ainda mais obrigados a preservar a memória. Porque se a memória desaparece, é como se feríssemos pela segunda vez as pessoas que viveram o inferno aqui, que atravessaram sofrimentos indescritíveis", alegou.

Na quinta-feira, Merkel anunciou a concessão de 60 milhões de euros à Fundação Auschwitz-Birkenau para a manutenção do local onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram mortas entre 1940 e 1945.

A maioria morreu pouco depois de chegar ao campo de concentração e extermínio nazista, localizado na atual Polônia.

A visita da chanceler, nascida nove anos após a Segunda Guerra Mundial, ocorre pouco antes da comemoração do 75º aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho russo, em 27 de janeiro de 1945.

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