Publicado 06 de Dezembro de 2019 - 7h57

Por AFP

No verão, uma mãe em Nashville com um distúrbio genético aparentemente incurável finalmente encontrou um fim para o seu sofrimento - editando seu genoma.

A recuperação de Victoria Gray da anemia falciforme, que lhe causava convulsões dolorosas, ocorreu em um ano de avanços em uma das áreas mais quentes da pesquisa médica: a terapia genética.

"Eu esperava uma cura desde os 11 anos", disse Gray, de 34 anos, à AFP por e-mail. "Desde que recebi as novas células, pude aproveitar mais tempo com minha família sem me preocupar com dor ou com uma emergência inesperada".

Durante várias semanas, o sangue de Gray foi coletado para que os médicos pudessem chegar à causa de sua doença - células-tronco da sua medula óssea que produziam glóbulos vermelhos deformados.

As células-tronco foram enviadas para um laboratório escocês, onde seu DNA foi modificado usando a técnica Crispr/Cas9, uma nova ferramenta informalmente conhecida como "tesoura" molecular.

As células geneticamente editadas foram transfundidas de volta para as veias e medula óssea de Gray. Um mês depois, ela estava produzindo células sanguíneas normais.

Médicos alertam que é necessário cautela, mas teoricamente ela foi curada.

"Esta é uma paciente. Esses são os primeiros resultados. Precisamos ver como funciona em outros pacientes", disse o médico de Gray, Haydar Frangoul, no Instituto de Pesquisa Sarah Cannon, em Nashville. "Mas esses resultados são realmente empolgantes".

Na Alemanha, uma mulher de 19 anos foi tratada com um método semelhante para uma doença sanguínea diferente, a beta-talassemia, que fazia com que ela precisasse receber 16 transfusões de sangue por ano.

Nove meses depois, ela está completamente livre desse fardo.

Durante décadas, o DNA de organismos vivos, como milho e salmão, foi modificado. Mas a Crispr, inventada em 2012, tornou a edição de genes mais acessível. É muito mais simples que a tecnologia anterior, mais barata e fácil de usar em pequenos laboratórios.

A técnica deu um novo impulso ao debate perene sobre a sabedoria da humanidade manipulando a própria vida.

"Tudo está se desenvolvendo muito rapidamente", disse a geneticista francesa Emmanuelle Charpentier, uma das inventoras da Crispr e cofundadora da Crispr Therapeutics, a empresa de biotecnologia que conduz os ensaios clínicos envolvendo Gray e o paciente alemão.

A Crispr é a mais recente inovação em um ano de grandes avanços na terapia genética, uma aventura médica iniciada há três décadas, quando os primeiros teletons na TV americana estavam arrecadando dinheiro para crianças com distrofia muscular.

Os cientistas que praticam a técnica inserem um gene normal nas células que contêm um gene defeituoso. Ele faz o trabalho que o original não pôde - como produzir glóbulos vermelhos normais, no caso de Gray, ou criar super glóbulos brancos que matam tumores para um paciente com câncer.

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