Publicado 05 de Dezembro de 2019 - 16h11

Por AFP

Faz nove dias que a família de Ali, junto com suas 27 ovelhas e seis camelos, se move sob o sol. Nove dias perseguindo nuvens que parecem debochar dele. É meio-dia, o termômetro excede 45 graus e, até onde os olhos podem ver, a terra está seca.

"Ouvimos dizer que as primeiras chuvas caíram no norte", diz o homem de olhos negros e que usa um turbante, enquanto enche um cantil. "É para onde estamos indo".

A estrada é longa: mais de 100 km até Bermo, no sul do Níger, o lugar onde milhares de pastores da etnia fulani se reúnem ao regressarem da transumância, a partir de julho.

A caravana escala paisagens arenosas e áridas da vizinha Nigéria, onde o ar é úmido e a água e a grama são abundantes. Ali e sua família passam alguns meses lá todos os anos e depois partem.

Mulheres e crianças se movem lentamente sobre burros, sobrecarregados com sacos de juta, tambores, tapetes e abóboras.

A cena se repete até o infinito. Uma procissão interminável de bois, ovelhas, cabras e camelos rumo ao norte.

Esse período é muito quente. Os animais, esquálidos, parecem exaustos. No entanto, o ano de 2019 está sendo bastante bom. As reservas de forragem de 2018 permitiram que eles resistissem e os primeiros brotos verdes já surgiram graças à chuva que caiu nas últimas duas semanas.

Mas quanto tempo vai durar?

Bermo, às portas do deserto, sofre cada vez mais secas que dizimam os rebanhos. E quando chove, são tempestades de areia ou chuvas torrenciais que corroem o solo.

O Níger, onde mais de 80% da população vive da agricultura e principalmente da pecuária, é o país do Sahel mais afetado pelos efeitos das mudanças climáticas e do aumento da temperatura.

Segundo as estatísticas nacionais, entre 100.000 e 120.000 hectares de terra são perdidos a cada ano devido à desertificação e erosão do solo.

"O clima se tornou completamente imprevisível. O que mais nos assusta são as secas, que nos surpreendem quando menos esperamos", lamenta Djafarou Amadou, engenheiro da Associação para a Redinamização de Animais no Níger (Aren).

No ano passado, Bermo e seus 66.000 habitantes receberam as primeiras chuvas com alegria em maio. Mas, depois de algumas semanas, elas pararam.

Não caiu nenhuma gota de água por 30 dias. As planícies começaram a ficar amareladas, a grama ficou escassa e o preço dos cereais disparou. O gado tornou-se um fardo para alimentar.

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