Publicado 05 de Dezembro de 2019 - 12h57

Por AFP

A campanha de intimidação se intensificou nesta quinta-feira no Iraque com a invasão por milhares de apoiadores dos paramilitares pró-iranianos da Praça Tahrir, no centro de Bagdá, causando preocupação entre os manifestantes que se levantaram contra o poder iraquiano e seu padrinho iraniano há dois meses.

Mais cedo nesta quinta-feira, o pai de uma manifestante com quem distribuía comida para os milhares de iraquianos acampados na Praça Tahrir, o epicentro dos protestos, disse à AFP que encontrou o corpo torturado de sua filha Zahra Ali, de 19 anos, algumas horas após seu sequestro.

Em 1º de outubro teve início o primeiro movimento de contestação espontâneo no Iraque em décadas. Desde então, quase 430 pessoas morreram, em sua maioria manifestantes, e cerca de 20.000 ficaram feridos, segundo um balanço estabelecido pela AFP a partir de fontes médicas e policiais.

Nesta quinta, apoiadores da Hachd al-Shaabi, uma coalizão paramilitar dominada por grupos pró-Irã e integrada ao Estado iraquiano, marcharam pela Praça Tahrir em meio a manifestantes chocados.

Eles brandiram paus, bandeiras iraquianas, bandeiras de seu movimento e retratos de combatentes mortos no combate aos jihadistas do Estado Islâmico (EI), mas também do grande aiatolá Ali Sistani, figura tutelar da política iraquiana.

Também exibiram faixas contra o Baath do presidente Saddam Hussein, que foi derrubado em 2003 após a invasão americana. Entoaram palavras hostis aos Estados Unidos, ainda influente no Iraque, e à Arábia Saudita, rival regional sunita do Irã xiita.

À tarde, apenas algumas dezenas de apoiadores da Hashd eram visíveis na praça, observou um jornalista da AFP.

Há dois meses, os manifestantes protestam contra as interferências estrangeiras, principalmente do Irã, cujo emissário, o general Qassem Soleimani, negocia atualmente a formação de um governo em Bagdá preservando os interesses iranianos.

O Parlamento, que deve se reunir no final da tarde, concedeu ao presidente Barham Saleh 15 dias para nomear um novo chefe de governo, enquanto a contestação exige a saída de toda a classe política, considerada corrupta e incompetente.

Em Tahrir, os manifestantes questionam as intenções dos apoiadores da Hashd, após o chamado de certas facções desta coalizão para "expulsar os vândalos" infiltrados, segundo eles, nas manifestações.

Tamim, um manifestante de 30 anos vestindo um colete à prova de balas, está convencido de que "eles vieram aqui para limpar e encerrar o protesto".

A polícia está nas ruas e pontes adjacentes à Praça Tahrir, onde ocorrem confrontos, mas não diretamente ao redor da praça.

Para Harith Hasan, especialista no Iraque, "poderia ser o começo de uma competição ou um conflito pela ocupação do espaço público". "Uma nova tática para esvaziar (as praças) ou reduzir o espaço disponível para os manifestantes", acrescenta o cientista político Toby Dodge.

Além dos mortos, dezenas de manifestantes foram sequestrados mais ou menos brevemente, muitas vezes por homens uniformizados que o Estado afirma não conseguir identificar. Pelo menos quatro deles ainda estão desaparecidos, de acordo com a Human Rights Watch.

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