Publicado 05 de Dezembro de 2019 - 8h57

Por AFP

Shara Sido, uma curda síria desalojada, recebeu em seu celular uma mensagem assustadora com a foto de um cadáver ensanguentado e a ordem "venha buscar seu filho".

A mulher de 65 anos culpa os grupos armados sírios apoiados pela Turquia, acusados por vários ONGs de execuções, desapropriações e "possíveis crimes de guerra" nas regiões conquistadas em outubro no norte da Síria.

"Eles mataram meu filho a sangue frio", denuncia Sido, mostrando à AFP, por telefone, a foto do "monstro" que, segundo ela, afirma que matou seu filho "por engano".

Mas Shara Sido não acredita que foi sem querer. "Eles vêm matar os curdos", acusa.

Mãe de cinco filhos, Sido morava em Ras al Ain, uma cidade fronteiriça de maioria curda que as tropas pró-Ancara tomaram em outubro.

Para proteger sua família, ela se refugiou na cidade de Qamishli, mais a leste, capital de fato da minoria étnica, levando consigo apenas algumas coisas, coletadas às pressas.

Mas quando seu filho, Rezan, de 38 anos, voltou a Ras al Ain para pegar alguns documentos e roupas, foi morto com outras quatro pessoas que foram com ele para ver como sua casa estava.

"Vou denunciar os crimes deles ao mundo", diz a sexagenária.

Desde 2016, a Turquia lançou três operações militares no norte da Síria, onde vivem muitos curdos, para expulsar, acima de tudo, os combatentes das Unidades de Proteção do Povo (YPG), a principal milícia curda na Síria, que Ancara considera "terrorista".

A Turquia teme a formação de um núcleo de Estado curdo em sua fronteira, o que poderia acender as aspirações de independência da minoria curda de seu território.

Ancara afirma que pretende transferir parte dos 3,5 milhões de sírios atualmente refugiados em seu território para uma "zona de segurança" no norte da Síria, um setor de 120 km de extensão que está sob seu controle.

Na sexta-feira, cerca de 70 sírios que estavam refugiados na Turquia cruzaram a fronteira rumo a essa região, segundo a imprensa turca.

Mas, de acordo com os curdos, o que Ancara realmente quer é substituir a população da região, principalmente curda, por sírios árabes.

Embora dezenas de milhares de deslocados pela violência nessa região tenham começado a voltar para suas casas, segundo a ONU, a maioria é árabe, e não curda, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

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