Publicado 04 de Dezembro de 2019 - 21h57

Por AFP

O juiz federal Emanuel José Matias Guerra, da 18ª Vara Federal, no Ceará, suspendeu nesta quarta-feira (4) a nomeação do presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Nascimento de Camargo, por negar que exista discriminação racial no Brasil.

Em sua decisão, o juiz alegou que Camargo não pode estar à frente da fundação, que tem como finalidade "promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira", devido a declarações que ofendem a quem a instituição deveria defender.

O magistrado citou em sua sentença alguns excessos de Camargo, que tem sido criticado por militantes do movimento negro desde a sua nomeação.

"Menciono, a título ilustrativo, declarações do senhor Sérgio Nascimento de Camargo em que se refere à [militante negra americana] Angela Davis como "comunista e mocreia assustadora", em que diz nada ter a ver com a "África, seus costumes ou sua religião", que sugere dar medalha a "branco que meter um preto militante na cadeia por crime de racismo".

Camargo chegou a afirmar, ainda, em data não informada pelo juiz, que "é preciso que [a vereadora] Marielle Franco morra. Só assim ela deixará de encher o saco".

Marielle, uma mulher negra e homossexual eleita vereadora pelo PSOL, foi assassinada em 2018 na região central do Rio de Janeiro.

Por tudo isso, o magistrado concluiu que há "incompatibilidade entre as declarações apresentadas pelo nomeado em redes sociais e os elementos essenciais buscados pela citada Fundação Palmares".

Em outras publicações recentes, Camargo afirmou que "racismo real existe nos Estados Unidos" e que "a negrada daqui reclama porque é imbecil".

Também criticou a adoção de cotas raciais como estratégia de acesso ao ensino superior e afirmou que o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, "precisa ser abolido", porque ""celebra" a escravidão de mentes negras pela esquerda".

Camargo foi nomeado presidente da Fundação Palmares pelo novo secretário da Cultura, Roberto Alvim, um diretor de teatro que lançou uma "cruzada" contra o chamado "marxismo cultural".

Alvim fez outras nomeações polêmicas, entre as quais a do presidente da Fundação Nacional das Artes (Funarte), Dante Mantovani, para quem ouvir rock leva ao satanismo, através do uso de drogas e do aborto.

"O rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo", afirmou Mantovani em um vídeo.

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