Publicado 04 de Dezembro de 2019 - 17h56

Por AFP

Uma baía dos sonhos no Oceano Pacífico foi eliminada para acomodar um imponente cordão industrial. Quintero e Puchuncaví, localidades consideradas o "Chernobyl chileno", sofrem com poluição do ar, mar e terra há mais de cinco décadas, o que também intoxica sua população.

Desde 1958, quando se decidiu relegar a pesca artesanal e a agricultura para transformar este lugar em um polo industrial que hoje abriga quatro termelétricas a carvão e refinarias de petróleo e cobre, os 50.000 habitantes destas comunas, situadas a apenas 120 km de Santiago, respiram diariamente gases emitidos por cerca de 15 fontes poluentes.

O "Chernobyl chileno", como é chamado pela organização Greenpeace, expõe a população, especialmente crianças e grávidas, a episódios recorrentes de intoxicação e doenças crônicas.

Para a Suprema Corte do Chile, as sucessivas negligências estatais ao longo desses anos puseram em risco "a saúde e, inclusive, a vida das pessoas".

No fim de setembro, o presidente Sebastián Piñera pediu desculpas aos habitantes de Quintero e Puchuncaví, após reconhecer que por 50 anos eles "foram maltratados". "Instalaram-se todo tipo de empresas sem normas; foi gerado um abuso com a natureza e com as pessoas", afirmou.

Alejandrina Arriaza vive com medo. Sua neta, Deyanira, de quase dois anos, sofre de uma doença pulmonar crônica que piora com a poluição.

Os médicos recomendaram que Alejandrina se mudasse em busca de um ar melhor, mas ela não tem para onde ir. Sua pequena casa de madeira e latão na parte alta da localidade de Ventanas, em Puchuncaví, tem vista para gigantescas chaminés industriais e recebe diretamente os gases das empresas.

No ano passado, uma nuvem tóxica cobriu o céu e oito de seus familiares adoeceram, durante a última grande emergência ambiental, entre agosto e setembro, quando se registraram mais de 1.300 atendimentos de emergência, após náuseas, dores de cabeça e erupções cutâneas.

Em meio ao alerta, as autoridades detectaram três gases tóxicos no ambiente: nitrobenzeno, tolueno e metilclorofórmio, este proibido no Chile.

Segundo o Colégio Médico, ainda que não haja sintomas, esses gases podem deixar sequelas. A exposição "vai produzir cedo ou tarde algumas doenças e pode facilitar o crescimento de um tumor", adverte o toxicólogo desta organização Andrei Tchernitchin.

Os episódios ativaram um novo Plano de Descontaminação, que inclui o monitoramento do ar e normas mais exigentes para emissões de dióxido de enxofre.

O parque industrial divide a baía em dois. De um lado, o imponente oceano Pacífico; do outro, gigantescas chaminés junto a enormes tanques de químicos e combustíveis.

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