Publicado 04 de Dezembro de 2019 - 17h27

Por AFP

Os moradores de Achacachi têm medo. Este município rural no departamento de La Paz, até pouco tempo identificado como reduto de simpatizantes de Evo Morales, tem sido nos últimos meses o epicentro de uma luta sangrenta entre os defensores do ex-presidente indígena e aqueles que o acusam de ser "autoritário".

A sede do governo autônomo municipal, na praça principal da cidade, está abandonada, com várias janelas destruídas. Nenhum reparo foi feito desde que o prefeito Edgar Ramos, ligado a Morales, deixou o município em 2017 em meio a alegações de corrupção.

Além de ficar sem prefeito, Achacachi, situada a 93 km a noroeste de La Paz, deixou de ter meses depois policiamento e promotoria. Desde então, a cidade de casas de tijolos aparentes e ruas de terra batida, onde vivem mais de 46.000 pessoas, é autogovernada por meio de conselhos formados por moradores.

O terror segue desde então. Os habitantes, principalmente indígenas, estão muito conscientes em relação à violência que eclodiu quando pediram ao prefeito um relatório sobre sua gestão.

Achacachi também é o berço dos "Ponchos Vermelhos", a "milícia Aymara" que defende a reconstrução da Bolívia proposta por Morales. Esses homens saíram em defesa do prefeito daquela cidade, localizada no Altiplano dos Andes a mais de 4.000 metros acima do nível do mar.

Os violentos confrontos duraram vários dias, com saques, depredações, queima de veículos e casas, incluindo a do prefeito. Por fim, a polícia interveio com o envio de mais de 400 agentes.

"Não queremos que Evo retorne, ele foi muito ruim, causou muitos danos às pessoas. Agora é assustador conversar, muitas coisas aconteceram (...) Houve violência e saques às lojas e ninguém nos ajudou", afirmou uma jovem indígena que não quis informar o nome.

As eleições presidenciais de 20 de outubro na Bolívia, nas quais Morales afirmou ter obtido um quarto mandato em meio a uma onda de alegações de fraude e irregularidades, reviraram a história do país, e em menos de um mês o ex-presidente renunciou e foi para o México, onde denunciou um golpe de estado.

Em seguida, surgiram confrontos com a polícia e saques em várias regiões do país.

De acordo com os primeiros resultados da apuração dos votos de 20 de outubro, Achacachi teria apoiado Evo Morales, mas os moradores negam esse dado.

"Isso não é verdade", diz Marta Vega. "Foi uma fraude, não votamos no Evo".

Quando Morales assumiu seu primeiro mandato, seu partido, o MAS, fazia campanha em Achacahi sem nenhuma dificuldade. Mas, muito antes da última eleição, o agora ex-presidente estava perdendo influência neste território.

A eleição de Evo Morales há 14 anos teve uma dado histórico: ele não apenas obteve 54% dos votos, algo que ninguém alcançou desde a restauração democrática de 1982, mas também jurou sua posição como "presidente dos nativos americanos da América" nas ruínas pré-colombianas de Tiwanaku.

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