Publicado 03 de Outubro de 2019 - 5h30

Os homens sempre rezarão para espantar demônios. Sempre foi assim e assim será. Os homens têm medo do desconhecido, das ruas escuras, quarto escuro, cachorro uivando em noite de lua cheia; tudo sempre dá muito medo. E medos. E foi por ter medo que o homem inventou a prece e, antes, Deus. Tem sido assim desde o início dos tempos. E assim será... e Deus continua deixando o medo dos homens seguirem seu curso. E talvez Deus seja apenas medo, o que um dia já me ocorreu.

A cada homem é dado o direito da crença, por mais idiota que tal possa parecer. Muitos arderam nas fogueiras por acreditar que a Terra girava em torno do Sol, uma coisa tão óbvia como a existência das bactérias, do breganejo e do pagode. Mas não perguntem isso ao presidente porque ele vai responder que não sabe de nada, nem do que acontece embaixo, em cima e ao lado do seu gabinete.

A mim, tanto faz. Por muitas e muitas noites acreditei que os meus demônios eram irmãos perdidos pelo universo. E tanto pedi, em rezas aprendidas com a minha avó, que levo a minha vida com um certo ar tranquilo. E assim aprendi a ciência das mulas-sem-cabeça, boitatás, curupiras, sacis e saçoas. E também tenho alguma tenência com sereias, algumas poucas de mares e muitas de rios, e com secretários de cultura também, principalmente interinos e afins, que também eles são estranhos seres de outro mundo. Também tenho estrela de boa conversa e um velho que é lobisomem, de pouca conversa mas de muitas histórias que falam dele.

Fui assim criado ao medo dos meus antepassados. E viverei assim, com os medos herdados, até o fim dos meus próprios tempos, com os meus anjos caídos, vivendo em medo pelo Desconhecido.

Devo dizer, porém, que aprendi a cantar algumas canções e recitar versos de Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Oswal Barroso e Alex Polari de Alverga. Com isso aprendi a não buscar atalhos para chegar aos muitos destinos que tenho em minha vida, enfrentando com todos os medos o mais longo e tortuoso caminho possível. Dizem por aí que o caminho da retidão é o mais curto para se encontrar o Diabo. Não estou interessado em comprovar, adianto. Muito menos em desmenti-lo.

Às vezes, medos e dores se tornam prazeres ao longo do caminho. E que se cumpra o Tempo do velho ano, com todos os seus medos, angústias e dores; e, sobretudo, com todos os pequenos e misteriosos prazeres que as dificuldades guardam em suas dobras, como se lenço fosse, e que servem para enxugar o suor dos dias de sol ardido ou de serenas tardes de chuva.

Aberrações sempre existiram e sempre existirão. E não vejo diferença alguma entre os nazistas e a tal democracia de extrema direita, ambos preocupados apenas na expansão de seus interesses geopolíticos, na manutenção de seus ideais de consumo e agregação de bens, tudo muito bem protegido pela exportação de suas ideologias através de um formidável e terrível parque armamentista.

Toda a vez que leio no jornal notícias sobre assassinatos, das mortes de adolescentes drogados, chefes de família, bandidos comuns, lembro do rei francês que baniu o inventor da metralhadora, do papa que proibiu o apoio para a mira do arqueiro e do lorde que condenou o ágio de banqueiros. Não sei como alguém pode dormir tranquilo fabricando armas ou ganhando dinheiro sobre o dinheiro emprestado a um necessitado.

E é por isso que busco passear pelas ruas da minha cidade e me enternecer com as crianças que caminham ao lado de seus pais, parar para uma conversa com um conhecido, olhar os jardins das casas e cumprimentar as pessoas que passam pela mesma calçada. Acho que nasci tarde demais...

Bom dia.