Publicado 01 de Outubro de 2019 - 9h07

Por Daniel de Camargo

Um dos estabelecimentos em Campinas alvos da operação de ontem

Wagner Souza/AAN

Um dos estabelecimentos em Campinas alvos da operação de ontem

Oito pessoas foram presas pela Polícia Civil na região de Campinas, ontem, acusadas de participar de uma organização criminosa interestadual especializada no roubo de veículos, desmanche e remessa das partes para revenda, em especial, para abastecer o setor H Norte, que concentra grande quantidade de lojas de autopeças e oficinas mecânicas em Taguatinga, cidade satélite de Brasília, no Distrito Federal. Até a noite de ontem, um suspeito que mora em Campinas permanecia foragido. Foram apreendidos também documentos, uma arma, peças de veículos desmontados, celulares, notas fiscais e bloqueadores de sinal GPS.

Pelo menos outros 11 residentes da região, segundo a delegada da Polícia Civil do DF e coordenadora da operação, Isabela Meireles, integram a quadrilha de cerca de 40 pessoas. Dos detidos em Campinas, informa, dois são tidos como "chefes" do esquema. Isabela garantiu que as investigações continuam e outras prisões devem ser efetuadas, em breve, mediante levantamento de mais provas, além das já existentes.

A estrutura, comparada pelas autoridades a de uma indústria, foi desmantelada pela Polícia Civil do DF, por meio da Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri). Ao todo, foram empregados cerca de 450 policiais, três aeronaves e 100 viaturas para o cumprimento de 120 mandados de prisão preventiva ou temporária, buscas e apreensões, assim como interdições de estabelecimentos comerciais nos estados de São Paulo e Goiás, além do Distrito Federal, abrangendo sete cidades, sendo cinco na região de Campinas — Campinas, Indaiatuba, Louveira, Sumaré e Valinhos.

Isabela explicou que as investigações constataram que os veículos eram furtados em Campinas e outras cidades da região, cortados em grandes galpões e rapidamente remetidos às lojas do Distrito Federal. Detalhou ainda que pelo menos seis caminhões diferentes eram usados no transporte das peças. "Cada caminhão comportava, em média, de 10 a 15 veículos cortados" informou, acrescentando que o percurso entre São Paulo e Distrito Federal, eventualmente com um posto intermediário em Goiânia, onde parte das peças eram descarregada, era realizado até três vezes por semana.

Com base nesses dados, a delegada estima que a quadrilha teria enviado ao DF, na última década, aproximadamente 2 mil carros 'picados’. Um cálculo preciso dos valores movimentados pela organização criminosa ainda não foi concluído, revela Isabela. Contudo, estima que cada carregamento era vendido por valores entre R$ 15 mil e R$ 30 mil. "Por exemplo, um Hyundai IX35 que é vendido por uns R$ 40 mil era cortado e comercializado por R$ 2,5 mil."

Para ludibriar a fiscalização rodoviária, eram emitidas notas fiscais frias. Todos os números de identificação do chassi também eram suprimidos, impedindo que fosse possível identificar e vincular as peças transportadas a ocorrências de roubos ou furtos no Estado de São Paulo. Ao chegarem ao DF, as peças eram pulverizadas em dezenas de lojas que as inseriam no mercado também pela emissão de notas falsas, fazendo girar uma imensa máquina de lavagem de dinheiro e uma série de fraudes tributárias.

Investigações

Isabela revelou que as investigações começaram há um ano. Na ocasião, empresários de Taguatinga denunciaram colegas do segmento pela venda de peças de origem ilícita. Policiais se infiltraram no comércio de autopeças e, passando-se por empresários, simularam compras de lotes de peças (chamados de “pacotes” ou “kit lata”). Contudo, a delegada esclarece que a apuração dos crimes evoluiu significantemente há aproximadamente quatro meses, quando um dos caminhões foi apreendido. Na oportunidade, toda a carga foi retirada e foi possível montar 10 carros completos, em suas palavras, como brinquedos da marca Lego. Os criminosos chegavam a enviar as baterias dos carros e até mesmo os extintores de incêndio que vinham ainda carregados.

Ao roubar ou furtar veículos em um estado e remetê-los para outro, a organização criminosa dificultava a ação das autoridades policiais. Nesse contexto, a emissão de notas falsas camuflava ainda mais a operação, razão pela qual o esquema conseguiu funcionar por tanto tempo sem ser descoberto.

Delegado coordenador do setor de inteligência do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 2 (Deinter 2) com sede em Campinas, Oswaldo Diaz Jr. atribui o êxito da operação à cooperação entre policias civis dos estados envolvidos. Diaz Jr. assegura que quanto maior o número de localidades de um crime, mais complexa é sua resolução. "Houve um menosprezo por parte dos integrantes da quadrilha, que acharam que a Polícia Civil do Distrito Federal não iria interagir com a de outros estados e ter a expertise para identificar os veículos furtados na nossa região", falou.

A operação foi batizada de Rota da Seda. Até o meio da tarde de ontem, a Polícia Civil do DF confirmou a prisão de 25 pessoas, sendo 14 em Brasília, oito na região de Campinas, e três em Goiânia, além da interdição de 20 lojas no setor H Norte em Taguatinga. Todos os indiciados irão responder por organização criminosa, roubo qualificado, receptação qualificada, lavagem de dinheiro, uso de documento falso e fraude tributária. A Polícia Civil do DF informou, em nota, que houve ainda "a decretação de amplo bloqueio patrimonial, havendo congelamento de contas bancárias, registro de imóveis e carros."

Escrito por:

Daniel de Camargo