Publicado 02 de Outubro de 2019 - 11h00

Por AFP

As torturas e agressões sexuais sofridas por centenas de estudantes em uma escola corânica na Nigéria trouxeram à luz a situação desses centros educacionais islâmicos, que muitas vezes escapam do controle das autoridades.

Na semana passada, em Kaduna, ao norte da Nigéria, a polícia descobriu mais de 300 meninos de diferentes nacionalidades trancados e acorrentados.

A imprensa nacional batizou o local de "Casa dos Horrores".

Os funcionários da instituição, uma espécie de reformatório, obrigavam-nos a viverem em "condições desumanas e degradantes sob o pretexto de ensinar o Corão e redirecionar suas vidas", disse à AFP o porta-voz da polícia estadual de Kaduna, Yakubu Sabo.

Os jovens foram encontrados presos a barras de ferro, com pés e mãos acorrentados, e seus corpos, cheios de hematomas e cicatrizes. Há relatos de violência sexual.

"Se você tenta fugir e te descobrem, eles enforcam você, ou te prendem", contou Abdullah Hamza, uma das vítimas.

São muitas as escolas islâmicas particulares, as Almajiri, no norte da Nigéria, uma região fundamentalmente muçulmana, pobre e abandonada pelo Estado.

As autoridades acreditam que existam cerca de nove milhões de estudantes nesse tipo de centro educativo.

"Kaduna representa o pior do sistema", declarou à AFP Mohammed Sabo Keana, chefe de uma ONG de Abuja que defende os direitos da criança.

"Este é um exemplo claro do que muitas crianças vivem, como serem obrigadas a mendigar nas ruas, além de serem vítimas de todos os tipos de violência, dormindo nas piores condições que se pode imaginar e vivendo sem a menor condição de vida e de higiene", acrescentou.

Em um comunicado, o presidente Muhammadu Buhari, ele próprio um muçulmano desta região do norte da Nigéria, chamou a escola corânica de "casa de tortura e centro de escravidão".

"Para pôr fim a essas práticas que geram violência contra crianças, nossas autoridades religiosas e culturais devem trabalhar em conjunto com os governos regionais e locais para denunciar essas situações e parar com essa violência que é conhecida, mas que tem sido negligenciada por nossa sociedade há anos", afirmou.

A Presidência não anunciou, porém, qualquer medida concreta para proibir e punir essas escolas.

Os defensores dessas instituições afirmam, por suas vez, que elas oferecem às famílias com poucos recursos os serviços que o Estado não pode prestar.

Por exemplo, milhões de crianças não têm acesso à educação neste país, com mais de 186 milhões de habitantes, onde a escola primária é, em tese, gratuita.

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