Publicado 02 de Outubro de 2019 - 10h01

Por AFP

Um laboratório do Rio de Janeiro está reproduzindo mosquitos resistentes à dengue, cujos descendentes, infectados com uma bactéria, podem ter um profundo impacto na luta contra o vírus, que este ano se expandiu pelo país.

Os cientistas estão utilizando Wolbachia, uma bactéria comum entre os insetos, exceto no mosquito Aedes aegypti (que transmite a dengue), para reduzir a propagação do vírus e de outras doenças, como zika e chikungunya.

Desde 2015, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio está produzindo mosquitos infectados com Wolbachia e liberando seus descendentes na cidade carioca e na vizinha Niterói.

A esperança é que propaguem a bactéria ao se reproduzir com mosquitos selvagens.

A Wolbachia estimula o sistema imunológico do mosquito, o que torna menos provável que ele contraia a dengue.

Se o mosquito contrair dengue, porém, a Wolbachia faz que seja mais difícil que o vírus cresça dentro do inseto e seja transmitido aos humanos.

Até agora, os resultados são promissores. Os cientistas envolvidos no experimento informam uma "redução significativa" nos casos de dengue e de chikungunya em bairros específicos.

Os testes mostram que mais de 90% dos mosquitos em áreas onde foram liberados os primeiros insetos infectados há mais de três anos têm a bactéria.

Mas Wolbachia não é a cura mágica para eliminar a dengue, explica à AFP Luciano Moreira, chefe do projeto no Brasil.

"Onde há pessoas, há mosquitos", diz ele, rodeado de centenas de tubos com milhares de mosquitos infectados com Wolbachia.

"Sempre dissemos que não somos a solução. Deve ser um processo integrado feito em conjunto. As pessoas ainda têm que destruir os locais de reprodução em casa", acrescenta Moreira.

O Brasil é um dos vários países que estão realizando ensaios com o chamado método Wolbachia, que surgiu na Austrália em 2011 para combater o vírus que infecta dezenas de milhões de pessoas no mundo todo.

O processo não implica uma modificação genética dos mosquitos, que já foi testada no Brasil e em outros lugares, com resultados insatisfatórios.

Milhares de mosquitos portadores de bactérias na Fiocruz são descendentes de insetos originalmente infectados com Wolbachia na Universidade Monash, na Austrália. Os insetos brasileiros são mantidos em pequenas caixas em uma sala com temperatura e umidade controladas.

Durante suas breves vidas, que podem durar até 100 dias no laboratório, os mosquitos acasalam múltiplas vezes.

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