Publicado 01 de Outubro de 2019 - 17h00

Por AFP

Dezenas de crianças de uniforme cáqui e boinas vermelhas do "exército jovem" russo se aglomeram nas vitrines de uma exposição dedicada a Mikhail Kalashnikov. Por trás do vidro, os primeiros modelos do AK-47, a arma mais conhecida do mundo, estão em exibição.

A Rússia festeja neste outono os 100 anos do nascimento de Mikhail Kalashnikov, um soldado raso soviético que sonhava ser poeta e que acabou projetando um célebre rifle de qualidades inigualáveis: inquebrável, leve e simples de manejar.

Para a ocasião, foi levada a Moscou a coleção do museu Kalashnikov de Izhevsk (Urales), onde fica a fábrica homônima e onde nasceu o engenheiro. A exposição "Kalashnikov. Soldado. Fabricante. Lenda" viajará depois até a Crimeia, a península ucraniana que a Rússia anexou em 2014.

Kalashnikov, falecido em 2013, era o 17º de 19 irmãos, e nasceu em uma família de camponeses de Altai. Ferido quando pilotava um tanque em 1941, começou a criar seu fuzil durante sua convalescença, impressionado pelas armas alemãs que havia visto em terreno.

Após um primeiro fracasso em um concurso do exército, o "Avtomat Kalashnikova 1947" se impôs e passou a integrar o arsenal dos soldados soviéticos. Até hoje, foram fabricados mais de 100 milhões de exemplares do "Kalashnikov", que equipa cerca de 50 exércitos nacionais e decora a bandeira de Moçambique.

Exaltado pela propaganda soviética como um meio de autodefesa, os primeiros usos da nova arma foram repressivos, para sufocar os levantamentos na Alemanha Oriental em 1953 e na Hungria em 1956, e para matar os civis que tentaram cruzar a Cortina de Ferro, conta o jornalista C.J. Chivers em seu livro "The Gun".

A URSS compartilha esta proeza técnica com os "países irmãos" do pacto de Varsóvia. Mas sua lenda vai muito além. O afundamento da União Soviética no caos fez com que a arma fosse muito distribuída e chegasse aos civis.

Fabricado no mundo todo, o AK-47 se tornou a arma das guerrilhas, dos terroristas, dos ditadores e dos ataques a tiros nas escolas americanas. É tão fácil de utilizar que costuma ser a arma das crianças-soldados, dos caçadores furtivos e dos guardas-florestais das reservas africanas.

Os rifles costumam chegar dos países da ex-Iugoslávia. As reservas do marechal Tito são vendidas por toda a Europa por menos de 1.000 euros.

No Afeganistão, onde cobriu a guerra, o jornalista C.J. Chivers fotografou AK-47 fabricados em Ijevsk em 1953 que os soldados afegãos continuavam utilizando. A arma acabou se voltando contra seu exército, durante a guerra entre a URSS e o Afeganistão, como também aconteceu com a Chechênia.

Nos austeros corredores do museu da Vitória de Moscou, dedicado ao conflito entre a URSS e a Alemanha nazista, as crianças do "exército jovem" lançado em 2015 pelo presidente Vladimir Putin, tiram selfies com o célebre rifle.

"Primeiro seus dedos doem, mas depois é bastante fácil", conta Maxime, um jovem que aprendeu a montar a arma em aula.

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